Se Os Tubarões Fossem Homens, de Bertold Brecht e Nelson Cruz

Sei que a turma tá curiosa pra conhecer os achados da #FIL (eu pelo menos tô bem louca pra compartilhar: logo vai ter vídeo especial lá no canal, só com entrevistas que tive a chance de fazer em Guadalajara) – mas se tem uma coisa que me deixa boba de feliz é ver livro bonito publicado aqui mesmo, debaixo do nosso nariz.

Peixes e Predadores

“Se os tubarões fossem homens” é lançamento fresquinho Editora Olho de Vidro, daqui de Curitiba. O texto de Bertold Brecht é ácido, cheio de ironia – parte de uma conversa entre um senhor (Senhor Keuner, o “homem pensante” de Brecht, visto por muitos como o alter ego do autor) e uma garota. “Se os tubarões fossem homens, será que seriam mais gentis com os peixinhos?” – ela pergunta. “Claro que sim”, responde ele – e a narrativa se desenvolve a partir daí, da construção de um mundo onde os tubarões muito se assemelham aos humanos.

A guerra, a arte, as escolas, a religião são abordadas com uma irreverência incômoda, doída – e as ilustrações de Nelson Cruz (que esse ano levou o Jabuti por seu trabalho sem igual) contribuem muito para isso. Também trazem acidez, genialidade e (por que não?) um bocado de esperança – constroem uma narrativa riquíssima, paralela ao texto escrito, que só o engrandece e amplia.

Daqueles livros que servem às crianças, aos pais, aos sobrinhos, aos amigos – que amplificam as possibilidades de um bom livro ilustrado e que, como diz o ilustrador ao final da obra, “rejeitam qualquer fronteira de idade”. Gamei!

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“Aqui Estamos Nós”, de Oliver Jeffers

Presente de Boas Vindas

Não é novidade pra ninguém que eu adoro presentear com livros infantis: gente grande, gente pequena, gente recém-nascida e gente que ainda nem nasceu. É que livro bonito é assim, pode ser lido por todos, pode – e deve! – ser revistado sempre. Oliver Jeffers escreveu e ilustrou “Aqui Estamos Nós” para seu filho, em seus primeiros dois meses de vida (“enquanto eu tentava entender o mundo por você”, diz ele na dedicatória ao pequeno Harland).

É como um manual para a vida, mas ilustrado com os traços divertidos de Jeffers. Começa com um tour pelo planeta terra, pelo ser humano, cheio de conselhos bem humorados (“cuide bem de seu corpo, a maioria das partes não cresce de novo”); fala dos animais, das pessoas, da diversidade, da multidão que somos: “por mais que a Terra pareça grande, tem muita gente morando aqui – 7.327.450.667 pessoas até agora – então seja generoso.”

É uma íntima e bem-humorada conversa do pai com o bebê, um livro que transmite amor – por mais piegas que isso possa soar, cês me desculpem.

Uma carta de boas-vindas em forma de livro ilustrado, um bocadinho de esperança em tempos difíceis. Por isso é o que escolhi para os pequenos e pequenas que vêm nascendo perto de mim, para amigos e amigas que vêm se tornando pais e mães – esse carinho com o livro lá em cima é o Tales, que logo vai completar seus dois meses. Roubei a foto do instagram da minha amiga Lena, mãe dele, na cara dura – não resisti. Que a vida seja generosa com você como é a família linda onde você nasceu, Tales. Bem-vindo a nosso planeta! <3

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A Redação, de Antonio Skármeta

Venho acompanhando recentemente os lançamentos de diversos livros infantis que tratam sobre política. Nada mais natural – mais do que nunca, percebeu-se que esse é também assunto de criança. Aliás, outros assuntos difíceis também são – e nada permite que os pequenos possam compreendê-los, que possam transitar por eles em segurança como a boa literatura (acompanhada de mediação, vale lembrar – onde há um livro assim, é importante haver também um adulto disposto a lê-lo, relê-lo e possivelmente conversar sobre ele).

Há livros realmente bons que tocam na política, mas um que me comoveu profundamente foi esse, “A Redação”. O livro foi lido pela Sandra Medrano em uma de nossas últimas aulas sobre mediação de leitura – ela costuma começar suas aulas assim, lendo um livro ilustrado, sempre um livro lindo! Nesse dia, a mulherada (nossa turma é só de mulheres) era só surpresa.

Escrito pelo chileno Antonio Skármeta (autor de O Carteiro e O Poeta), ele conta a história de Pedro, um garoto de 9 anos apaixonado por futebol. O cenário é a ditadura – e apesar de não entender bem o que se passa, Pedro percebe que algo de estranho acontece. Vê o pai de um de seus colegas sendo levado por soldados enquanto no comércio alguns observavam curiosos e outros fechavam suas portas, temerosos.

Seus pais, todas as noites, ouviam angustiados uma rádio cheia de chiado, ansiosos por notícias de amigos e companheiros – mas suas perguntas não eram exatamente respondidas, o clima, sempre tenso. Um dia, então, sua sala de aula é visitada por um militar: bigode grisalho, óculos escuros, medalha no peito. Ele traz uma missão para a turma, quer que todos escrevam uma redação. O tema: “O que minha família faz todas as noites”.

É aí que entra a tensão, a surpresa: a maturidade e o humor do garoto mostram a sensibilidade e percepção das crianças sobre o que acontece em torno de nós, e é impossível não se emocionar. As ilustrações são de Alfonso Ruano, realistas, intensas, detalhadas – em absoluta harmonia com o rico texto de Skármeta, traduzido para o português por nossa Ana Maria Machado.

Em tempos difíceis, mais uma vez, a arte. 💙

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