Livros infantis ruins: como saber?

Tá certo, gosto é gosto e cada um tem o seu. Mas nesses meus muitos anos de leitora, oito anos de mãe e cinco de muita literatura infantil posso dizer que aprendi algumas coisas: uma delas é de existe sim livro ruim e livro bom.

E tá tudo bem gostar de livro ruim? Lógico que tá! Só não vale oferecer só isso às crianças. É importante prezar pela qualidade e principalmente pela diversidade dos livros que escolhemos para nossos pequenos, para que eles cresçam críticos e aí sim, decidam por si só. 

Confira algumas dicas de como evitar encher a biblioteca de livros de qualidade duvidosa: coisa super fácil de acontecer se você depender das feiras literárias e vitrines das grandes livrarias por aí. 🙁

  1. PERSONAGENS DA MODA

Todo mundo tem um licenciado em casa! Por aqui já circulou livro do Hot Wheels, livro da Peppa…e não tem problema nenhum. Mas é importante ir além deles. Esses livros não são literatura, geralmente trazem o conteúdo do desenho replicado, simplificado e as histórias são extremamente bobas. Ou seja, pra quê? Melhor aproveitar o livro justamente pra conhecer outros universos, ufa!

  1. BARULHOS, TEXTURAS E FON-FONS

A vida muda quando a gente descobre que livro pra bebê não tem que ser livro indestrutível não. Pode sim ter um ou dois em casa, mas lembre-se que são mais brinquedos, geralmente, do que qualquer outra coisa. Aposte em livros de verdade já com os bebês! Livros com barulhos, sons, brindes, só trazem poluição sonora e visual e não, também não são literatura. A mesma coisa para livros de texturas: acredite, a criança vai conhecer texturas na vida, indo no parque, na praça, passeando na feira! Através de experiências e estímulos muito mais ricos do que através desses livros. É sério!

  1. LIVRO PRA ISSO, LIVRO PRAQUILO

Essa é outra coisa importante de se livrar de vez, acreditar que o livro infantil TEM que ensinar alguma coisa, tem que servir para algo. Livro pro amiguinho que tá mordendo, livro pra ensinar a reciclar, livro pro desfralde – os livros podem ser de muita ajuda, mas quando são livros bons, divertidos, e principalmente, quando a leitura já faz parte do contexto familiar. Chegar sempre oferecendo livro pra ensinar isso, ensinar aquilo, além de não funcionar como mágica (como muita gente acredita), é muito chato! Ninguém aprende a gostar de ler levando lição de moral o tempo todo, socorro!

  1. ADAPTAÇÕES FRACAS

Os clássicos têm uma importância enorme na formação do leitor literário – são clássicos por uma razão e são uma das maiores riquezas da humanidade! É lindo poder curtir essas histórias junto de nossos filhos, são inesquecíveis. Mas sempre questione as adaptações. Verifique autoria, adaptação, a qualidade da ilustração…há adaptações realmente boas de clássicos, inclusive escritas por grandes nomes da nossa literatura. Sempre que possível, conheça e apresente também a versão original, tal qual foi escrita – e aí sim, contextualize, questione, critique. A literatura tá aí pra isso também!

  1. EDITORA CONHECIDA NÃO SIGNIFICA QUALIDADE

Termino com essa dica porque é algo que eu tenho ouvido muito, principalmente de professores: “ah, adoro os livros da editora tal”. Pois é, tem editoras que são referência mesmo, mas salvo raríssimas exceções, todas editoras têm livros ruins em seus catálogos. As grandes então, nem se fala – e pior, costumam vender esses livros a preços sedutores, baratinhos…fuja desses! Troque 4 livros de 5 reais por um bem escolhido de 20 que eu te garanto: ele não só vai ser muito melhor como ainda vai acompanhar a criança pelo resto da vida! E acima de tudo: diversidade, minha gente! Diversidade de editoras, autores, ilustradoras, formatos, gêneros…quanto maior ela, melhores nossas possibilidades de escolha!

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Você Conhece? #04 – Isabel Minhós Martins

Quem me acompanha por aqui há tempos já tá cansado de saber: a portuguesa Isabel Minhas Martins é uma das minhas escritoras preferidas na literatura infantil.

Agora, por que será? O que têm seus livros de tão especial? E afinal, quais os preferidos? Pois tá tudo nesse vídeo ca-pri-cha-do e cheio de amor. O novo “Você Conhece?” tá no ar, só clicar aqui! 🙂

Os Figos São Para Quem Passa

Lá na Flip (onde estive participando de uma mesa sobre curadoria e passando um nervoso sem precedentes, PELAMOR) tive a chance de conhecer muita gente de perto, como a Luísa, da Edições Chão da Feira . O encontro foi rápido, o abraço apertado – a editora tem um trabalho muito bonito! “Os Figos São Para Quem Passa” é sua primeira publicação para os pequenos.

esse título, gente! <3

No começo de tudo

Essa história (que já encanta pelo título) começa lá nos primórdios, quando o mundo era só um, ninguém pertencia a nada e nada pertencia a ninguém. Nessa época os animais circulavam sem destino, planos, agenda ou coisas para carregar. Almoço, então, nem pensar! Pelas estradas sempre aparecia um fruto maduro, pronto para alimentar quem por ali passasse. Ou verde para alimentar quem passasse nos dias seguintes – o que, aliás, fazia com que nunca amadurecessem todos ao mesmo tempo, tão sábia a natureza!

Um dia algo mudou: um urso encontrou uma árvore com figos – todos verdes, não fosse um quase maduro. Resolveu esperar. Não demoraria mais que um dia para que o fruto ficasse a ponto de pingar mel, exatamente como ele gostava! Mas uma raposa, um par de pássaros e uma pequena lagarta transformam a espera do urso – fazem ele passar alguns apuros e também o fazem pensar. E fazem o mesmo com o leitor!

Mudanças e Adaptações

Ilustrado por Bernardo P. Carvalho e escrito por João Gomes de Abreu (do maravilhoso “A Ilha”, aliás!), o livro foi publicado em Portugal pela Planeta Tangerina, em edição que voou para cá recentemente comigo. Não vou dizer que não faz falta a capa dura, a textura e cor do papel, a diagramação e até mesmo a fonte da original – mas entendo os custos e dificuldades para se produzir um livro assim.

O que me intrigou foi a “adaptação” do texto, como uma simplificação. Nada que mude o sentido da história, mas que (na minha modesta opinião) tira um bocado da poesia, da beleza da narrativa. Tem uma foto abaixo, de apenas um trechinho, para vocês também compararem – e pra gente poder discutir isso melhor, que juro, hoje me deixou com a pulga atrás da orelha. Era mesmo necessário, será? Ainda assim: é um livro lindo, divertidíssimo, muito atual. Feliz por tê-lo finalmente ao nosso alcance! 😉

à esquerda a publicação da planeta tangerina; à direita, da chão de feira

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