A Redação, de Antonio Skármeta

Venho acompanhando recentemente os lançamentos de diversos livros infantis que tratam sobre política. Nada mais natural – mais do que nunca, percebeu-se que esse é também assunto de criança. Aliás, outros assuntos difíceis também são – e nada permite que os pequenos possam compreendê-los, que possam transitar por eles em segurança como a boa literatura (acompanhada de mediação, vale lembrar – onde há um livro assim, é importante haver também um adulto disposto a lê-lo, relê-lo e possivelmente conversar sobre ele).

Há livros realmente bons que tocam na política, mas um que me comoveu profundamente foi esse, “A Redação”. O livro foi lido pela Sandra Medrano em uma de nossas últimas aulas sobre mediação de leitura – ela costuma começar suas aulas assim, lendo um livro ilustrado, sempre um livro lindo! Nesse dia, a mulherada (nossa turma é só de mulheres) era só surpresa.

Escrito pelo chileno Antonio Skármeta (autor de O Carteiro e O Poeta), ele conta a história de Pedro, um garoto de 9 anos apaixonado por futebol. O cenário é a ditadura – e apesar de não entender bem o que se passa, Pedro percebe que algo de estranho acontece. Vê o pai de um de seus colegas sendo levado por soldados enquanto no comércio alguns observavam curiosos e outros fechavam suas portas, temerosos.

Seus pais, todas as noites, ouviam angustiados uma rádio cheia de chiado, ansiosos por notícias de amigos e companheiros – mas suas perguntas não eram exatamente respondidas, o clima, sempre tenso. Um dia, então, sua sala de aula é visitada por um militar: bigode grisalho, óculos escuros, medalha no peito. Ele traz uma missão para a turma, quer que todos escrevam uma redação. O tema: “O que minha família faz todas as noites”.

É aí que entra a tensão, a surpresa: a maturidade e o humor do garoto mostram a sensibilidade e percepção das crianças sobre o que acontece em torno de nós, e é impossível não se emocionar. As ilustrações são de Alfonso Ruano, realistas, intensas, detalhadas – em absoluta harmonia com o rico texto de Skármeta, traduzido para o português por nossa Ana Maria Machado.

Em tempos difíceis, mais uma vez, a arte. 💙

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