Carta de Apoio a Ana Maria Machado e à Literatura

Se você é mãe, é possível que tenha recebido alguma mensagem a respeito do livro “O Menino Que Espiava Para Dentro” e uma suposta incitação ao suicídio – mas antes de esbravejar contra a autora, compartilhar a mensagem a torto e direito, peço cinco minutos para a leitura da carta abaixo, escrita entre. É preciso ler mais, é preciso refletir. 

CARTA DE APOIO À ANA MARIA MACHADO E À LITERATURA

Em virtude dos recentes posts e mensagens que alegam incitação ao suicídio no livro infantil “O menino que espiava pra dentro”, da consagrada autora Ana Maria Machado, e também por outros casos semelhantes que vêm acontecendo ultimamente, nós, incentivadoras digitais, amantes e estudiosas da Literatura Infantil e Juvenil, gostaríamos de falar um pouco sobre o assunto.

Em primeiro lugar, acreditamos que uma obra literária não pode ser lida ou interpretada a partir de um fragmento descontextualizado. É necessário compreender o texto por inteiro e com isso a mensagem completa do autor. Uma descontextualização dessas pode gerar ruídos que denunciam a formação de leitores deficitária deste país, mostrando como a literatura é mal interpretada, infelizmente.

O livro narra a história de um menino cheio de imaginação, que ama explorar seu mundo interior. Numa intertextualidade com contos de fadas clássicos, ele brinca de ser um “Belo adormecido” ou “Branco de neve”, querendo ficar um tempo mais longo no mundo da imaginação. Assim, usa o mesmo recurso da história da Branca de Neve contada pelos Irmãos Grimm originalmente: engasga com uma maçã e vai para o mundo da imaginação, para depois “desengasgar” e voltar ao mundo “real”.

Reparem que a autora refere-se à versão mais antiga e anterior à versão da Disney, em que a personagem engole uma maçã envenenada e é acordada por um príncipe.

É importante frisar dois pontos do final da história:

1)      No fim do livro, ele é acordado pela mãe. Fica claro que a aventura foi um sonho do menino e não um caminho real para chegar ao mundo da imaginação.

2)      Mesmo com as maravilhas do seu mundo interior, no fim, a aventura não dá certo, pois tudo fica escuro, já que ele não tinha mais o mundo exterior para alimentá-lo. Quando ele acorda do sonho, portanto, percebe o valor de viver a vida para além da imaginação. E isso fica claro no texto.

Contudo, se mesmo assim a família considerar o texto arriscado, não há problemas, basta não o incluir em seu acervo. Mas é necessário abrir-se para a possibilidade de outras pessoas interpretarem de maneira diferente. Outras famílias podem achar, por exemplo, que o livro fala sobre a beleza do mundo da imaginação que pode ser encontrada dentro de cada um, num equilíbrio imprescindível entre o mundo interior e o exterior.

Com esse ponto, ressaltamos a importância de o adulto acompanhar as leituras feitas pela criança e o grande valor da MEDIAÇÃO DE LEITURA e do DIÁLOGO. A literatura em sua essência não se propõe a ter finalidade educativa, obras literárias não devem ser compreendidas como obras didáticas. Em um livro de histórias (note bem: não nos referimos a didáticos ou paradidáticos), a narrativa impera e não há intenção de se ensinar qualquer coisa que seja. Bons livros nos levam a boas reflexões.

“O menino que espiava pra dentro” foi publicado em 1983 e não estamos cientes de qualquer relato de criança que tenha se inspirado na obra para cometer qualquer ato contra a própria vida.
E, mesmo que o livro abordasse um tema tão delicado (o que não acontece!), afirmar que ele faz uma  apologia ao suicídio é o mesmo que dizer que os contos das Mil e Uma Noites estimulam a violência ou que As Aventuras de Pinóquio incitariam à  mentira.

Trazemos a público neste momento, assim, nosso apoio à Ana Maria Machado e a tantos outros autores que têm suas obras mal interpretadas e nos posicionamos contra todo e qualquer tipo de movimento que possa afastar ainda mais a Literatura Infantil da sua vocação maior: a arte.

Daisy, Bella, Malu, Padmini, Paula e BrunaCarol, Maria Amélia, Gisele e CatheEunicia, Julia, Rosa, Anna, Nedjma, Emília, Alessandra e Nina – apoiadoras e estudiosas da literatura infantil. 

Vamos conversar?