oi! meu nome é daisy e aqui eu compartilho minhas aventuras literárias (e mais), com meus filhos francisco, de 7 anos, e vinícius, de 1 ano. seja bem-vindo! Leia mais



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28 nov 2014

para conversar sobre a morte: três livros (um digital) para ler com as crianças

Escrito por
Livros Digitais e Aplicativos, Para Conversar Sobre a Morte, Para Refletir

Olha aqui eu de volta, depois de semanas ausente – mas pera, explico: o blog vai mudar, e em breve. Vai mudar de nome, de cara, vai mudar bastante – então posso dizer que estamos trabalhando para melhor atendê-lo. Lógico que o principal não vai mudar: vou seguir compartilhando minhas leituras e experiências com o Francisco. Aliás, é muito legal o quanto algumas leituras, alguns posts que publico aqui, geram conversas e longas trocas de email.

Na próxima sexta vai fazer um mês da morte do meu pai. Na minha última passagem aqui pelo blog fiz um post grandão sobre O Menino Maluquinho e sobre o quanto o livro e o filme vem nos ajudando, a mim e ao Francisco, a superar essa recente e dolorosa perda. O que eu não esperava era o retorno tão bacana que teria com o post – gente que comentou aqui, no facebook, que escreveu para mim com coisas bonitas e dicas de livros para falar justamente sobre o assunto: a morte.

É um tabu, não adianta – ninguém gosta de conversar com as crianças sobre assuntos difíceis. Mas é necessário, não tem jeito – e quanto maior o diálogo, mais fácil fica depois. Eu percebo isso bem claramente aqui em casa. Como a gente já acompanhava a doença do meu pai há alguns meses, houve a chance de “se preparar” para a morte. Entre aspas porque ninguém se prepara de verdade para ela, não adianta – é sempre triste, doloroso, vazio. Mas uma boa aliada é a literatura, como sempre. Existem bons livros infantis que tratam do assunto – alguns de forma mais lúdica, outros mais diretamente. O importante é que abrem caminho para essa difícil conversa – e acabam tornando as coisas mais fáceis.

Separei três livros que por aqui têm nos dado bastante amparo nesse momento. Três livros infantis que tratam lindamente sobre a morte:

***

1. PEDRO E LUA

Desse livro eu já falei por aqui algum tempo atrás – mas é tão bonito que eu me permito falar de volta, não me aguento. Na história do menino Pedro, rapazinho apaixonado pela lua, a morte surge com bastante sutileza. Não é dita assim, como conhecemos – mas está lá. Aqui, quem parte é a Lua, a zmiga tartaruga de Pedro. É bonito demais todo o processo no qual ele a encontra, se apega a ela e um dia a vê partir.

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Lá no post antigo que eu fiz sobre o livro eu não quis contar o final – porque é justamente esse, um dia ele volta pra casa e encontra só o casco da tartaruga. O final é inesperado e bastante triste – mas de uma delicadeza só:

“Deu dor no coração ver Pedro com saudade da amiga.

De noite, foi levar o casco de Lua para junto das pedras.

Lá, descobriu que tartaruga também tem saudades.

Lua tinha mudado de casa. Voltou para a sua.”

Acho especialmente bonito o ritual que o menino elabora: leva o casco da tartaruga para junto das pedras, acreditando que ela segue seu caminho. Sua amiga no fundo permanece, mas invisível. Fica a saudade e a lembrança. Tanto o texto quanto as ilustrações são de Odilon Moraes, e a edição é da Cosac-Naify. O texto é enxuto e curto, mas tem jeito de poesia; as ilustrações são em preto e branco, com ar de esboço, rabiscos a giz e sombra. Mais um detalhe: a capa, repleta de estrelas, brilha no escuro – um livro da cabeceira, pra admirar, ler e reler.

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2. O PATO, A MORTE E A TULIPA

Diferente do livro anterior, aqui a morte está clara – ela está no título e tem aquele jeitão de morte que a gente teme, com corpo comprido e cabeça de caveira. Mas essa não dá medo não – é engraçado dizer isso, mas é quase reconfortante como a morte aqui é tratada.

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Um dia, o pato para e pergunta para aquela senhora-caveira o que ela faz andando atrás dele. Já há algum tempo que ele não vinha se sentindo bem. Ela explica quem é, deixa o pato intrigado. Mas dali surge uma espécie de amor e de amizade. É como se a morte, cheia de paciência, fosse acostumando o pato com a ideia de que ele está partindo, toda carinhosa. Eles passeiam, têm longas conversas, dormem abraçados. Gosto especialmente de quando o pato sobe com ela em uma árvore e observa o lago:

“Lá de cima dava para ver o lago. 

Tão tranquilo – e tão solitário.

‘Vai ser assim quando eu estiver morto’, pensou o pato. 

‘O lago, sozinho, sem mim.’

Às vezes, a morte podia ler pensamentos. 

– Quando você estiver morto, o lago também não vai mais estar lá – pelo menos não para você.”

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Depois de passeios, conversas (a morte se vê respondendo diversas perguntas) e abraços, o pato morre. Aí é de apertar o coração com tanta beleza: a morte o carrega até o lago, ajeita suas penas. Deita-o sobre a água e coloca uma tulipa sobre seu corpo. Sente quase uma tristeza ao vê-lo partir – mas então pensa: “é a vida”.

Foi essa a história que mais incentivou perguntas e conversas sobre a morte aqui em casa. O Francisco, logo na primeira vez em que lemos o livro, me perguntou: “mãe, me diz uma coisa: você é a morte?”. Eu disse que não, “por que você achou isso?”. A resposta dele: “porque você me disse que ia enterrar o vovô”. Expliquei que era o corpo que enterrávamos – e que dali esse corpo viraria árvore, rio, estrela.

Alguns dias depois o Francisco volta da aula me dizendo: “eu vi o vovô hoje, lá na escola”. Perguntei onde. A resposta dele: “em um passarinho”. Acho que entendeu bem, do seu jeitinho, o ciclo da vida. Vovô segue, mas em outra forma, de outro jeito. É a vida, como diz ali a própria morte. O livro é ilustrado e escrito pelo alemão Wolf Erlbruch, e no Brasil a edição é também da Cosac-Naify.

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3. ES ASÍ

Esse aqui foi uma surpresa. Baixei o aplicativo porque fiquei curiosa com as ilustrações  – não esperava que fosse descobrir ali um livro tão bonito! Es Así trata da morte de um jeito simples, sem firula alguma. Trata mesmo é do ciclo da vida – todos nascemos e morremos. É direto, como o título: afinal, “é assim”.

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Mas a delicadeza está em toda parte: o livro é delicado nos traços, nas cores, nas expressões dos personagens, nos mínimos detalhes. Na história, é pura simplicidade. Começa logo assim (em uma tradução livre minha):

“Alguns já partiram.

O gato do vizinho, a tia Margarida, o peixe da sopa de ontem.

Outros chegarão.”

E segue. Minha parte preferida é uma na qual os que vão se cruzam no ar com os que estão chegando – se desejam felicidade e seguem seu caminho. Me emociono com ela. O texto é pouco, mas basta – ficam nas ilustrações o monte de detalhes e segredos. Essa é outra coisa bacana: o livro permite bastante interatividade. A sopa que se termina, o cumprimento dos que se encontram, dá para tocar e brincar. O Francisco se diverte – cada página tem que ser amplamente explorada, nenhum canto sai despercebido.

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Uma coisa: só em espanhol e em inglês. São as únicas opções – uma pena não ter também português. Aqui em casa a gente ouve em espanhol – é bem fácil de entender e a narração é bonita demais para os ouvidos. Tanto o texto quanto as ilustrações são da chilena Paloma Valdivia. O livro digital, disponível para Ipad, custa cerca de 5 dólares na loja da Apple.

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4 nov 2014

livro + filme + desabafo: O Menino Maluquinho

Escrito por
Clássicos, Destaques, Divertidos, Literatura Brasileira, Para Conversar Sobre a Morte, Para dar risada, Para Refletir, Posts Especiais

Entre as coisas das quais mais me lembro da minha infância são livros. Livros meus, livros dos outros. Tive o privilégio de ter um pai e uma mãe leitores – meu pai rodeado por enciclopédias sempre fora do lugar (era pesquisa o tempo todo: dos meus irmãos, do meu próprio pai, de quem estivesse disposto a pesquisar), minha mãe com seus romances e García Márquez (compartilhamos até hoje nosso livro preferido, aliás: O Amor nos Tempos do Cólera). Além disso, quando eu tinha a idade do Francisco, meus irmãos (sou a caçula de uma família de três) também viviam com seus livros: meu irmão do meio ingressava no segundo grau. O mais velho já estava na faculdade de medicina, e estudioso (ou melhor, CDF mesmo) como era (e ainda é, diga-se de passagem), passava madrugadas mergulhados em livros que me despertavam todo tipo de curiosidade.

E lógico, tinham os meus livros. Livros que minha mãe teve a sabedoria de guardar muito bem guardados e de me entregar todos, anos depois. Releio muitos com o Francisco – já até falei de alguns por aqui, como o Lúcia-Já-Vou-Indo (Francisco jura que a lesma se parece comigo, obrigada) e O Sapato que Miava, da Sylvia Orthof, entre outros. Eu tenho uma memória afetiva enorme com esses livros, e reler cada um deles com o Francisco me traz um monte de coisa boa de volta, é delicioso. Para mim e para ele, que se sente todo orgulhoso de conhecer os livros da infância da mamãe e tem a chance de ler muita coisa boa – porque não é por nada, mas como tinha livro legal na nossa época!

os livros da minha infância, de volta para mim e agora para o francisco também

Esses dias fiz a festa em mais uma caixa de livros lá do meu tempo. Nela, meus preferidos de quando era pré-adolescente, como a série Vagalume (que estou relendo com amigos, porque o entusiasmo foi geral), a série Salve-se Quem Puder e vários outros livros de dois escritores (sempre suspense!) que eu idolatrava: Stella Carr e Ganymedes José. Além desses, alguns que já venho relendo com o Francisco, como os da Bruxa Onilda (todo amor do mundo por ela) e um bem, mas bem especial: O Menino Maluquinho, do Ziraldo.

Mas vou contar do início: aqui em casa, o caminho foi inverso: primeiro apresentei para o Francisco o filme, e só depois o livro. O filme foi sugestão de uma amiga – na história, o avô do Menino Maluquinho vem a falecer. Como meu pai, avô do Francisco, já estava doente fazia alguns meses, vítima de um câncer terminal, o filme nos deu a brecha para conversar sobre esse assunto difícil, a morte. No filme, ela é tratada com muita delicadeza: o avô falece um pouco antes de um torneio de futebol que organizava com os garotos. E o torneio acontece assim mesmo, como uma homenagem ao grande avô.

Na sexta-feira passada, dia 31 de outubro, foi a vez do avô do Francisco de fato vir a falecer. Era esperado, como eu disse – mais do que isso, foi o derradeiro alívio de uma doença que o estava fazendo sofrer muito. E o filme fez o Francisco entender de um jeito que acredito que não entenderia tão facilmente se não tivéssemos conversado sobre isso – “o vovô morreu, igual ao do Menino Maluquinho? então eu sou o Menino Maluquinho, né?”.

Mas o filme é também muito divertido – eu não esperava, no início, que cativasse tanto o Francisco. Mas não deu outra: foi assistir a primeira vez e pronto, dá-lhe alugar o Menino Maluquinho na tv a cabo, que era o único lugar no qual eu havia encontrado (depois achei o DVD baratinho na Livraria da Folha, mas acho que comprei o último – logo ficou esgotado. mas se liga: tem no youtube o filme completo de grátis, rá!). O filme é muito engraçado – pelo menos o Francisco morre de rir em algumas cenas, como uma em que todos os garotos se reúnem embaixo do cobertor para ver, pasmem, quem tem o pum mais fedido. Pois é – o filme é todo assim, uma sequência de traquinagens atrás da outra, muitas um tanto quanto politicamente incorretas, mas que fazem a garotada rir demais.

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o livro, minha antiga edição, e o filme em dvd

O livro aqui em casa veio depois – justamente nessa caixa da qual eu falava lá em cima. A primeira leitura já rendeu uma choradeira daquelas: é que ele tinha sido presente da minha avó, a Vó Zazana, mãe do meu pai – e nele encontrei uma dedicatória linda, escrita por ela em 1990, no meu aniversário de 8 anos. Peço a licença de dividi-la aqui com vocês:

“Minha querida Daisy,

Este pequeno presente representa muito o valor que você tem, pois no primeiro ano escolar ganhou o prêmio de melhor aluna, prêmio de muito valor para todos nós. Daisy, você não é menino e muito menos maluquinho, mas na sua idade pequenina, você sabe “ouvir e entender estrelas”, por ser muito inteligente! Como livrinhos de história, foi este que eu quis lhe dar. Espero que goste. Os teus irmãos vão gostar, e teu pai se lembrará também que foi um menino maluquinho.

Da tua vovó,

Zazana”

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a dedicatória da minha avó, em 1990 🙂

Li com meu pai dedicatória na semana passada, alguns dias antes dele falecer, e foi muito emocionante. O livro, venho lendo noite e dia com o Francisco. O fato de a gente ter visto e revisto o filme diversas vezes ajudou na curiosidade do rapaz: logo na primeira vez que lemos ele já prestou atenção e reconheceu diversas coisas do filme. Mas a verdade é que o livro não mesmo tem igual. Em tempos de tanto debate sobre o quanto é importante brincar, ele é a obra infantil mais atual possível – a história de um menino que gostava mesmo era de molecar, aprontar e se divertir. Um menino que passou por poucas e boas como todas crianças – afinal, também é importante conversar sobre assuntos tristes, mas que são parte da vida mesmo e não tem jeito. A separação dos pais, a despedida de um amigo que muda para outra cidade, a morte do avô.

“(…) ele ri baixinho

quando a saudade

apertava

pois descobriu

que

a saudade

era o lado

de um dos lados

da vida

que vinha aí.

Agora vejam se pode

uma descoberta dessas!

Só mesmo sendo maluco

ou sendo amado demais.”

 

Mas era mesmo o final do livro que me emocionava quando eu era criança: Ziraldo conta lá o quanto o moleque era bom de bola, segurava todas quando brincava de goleiro. Só não conseguiu mesmo foi segurar o tempo – cresceu. E o principal: cresceu e virou um cara legal! Minha Vó Zazana, no fim, tava certa: o meu pai, Napolho, como eu o chamava (seu nome era Luis Napoleão), era mesmo um menino maluquinho. Só podia ser mesmo, porque virou um cara legal também, legal demais. E na semana passada deixou uma saudade sem tamanho, que tá difícil de engolir. Mas é como o próprio Menino Maluquinho: essa é uma das partes da vida, e é assim e pronto.

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Enfim, tudo isso, todo esse papo para hoje recomendar esse livro, O Menino Maluquinho. É daqueles que não dá pra deixar de ter na biblioteca, pra ler e reler e reler e reler, anos e anos depois (vide nós aqui). Pra rir e chorar. E o filme, o filme também. Vale assitir, rir, chorar rapidinho e voltar pro livro. Dá-lhe Ziraldo, o mestre. Obrigada por isso.

***

O Menino Maluquinho

autor e ilustrador: Ziraldo

Editora Melhoramentos

onde achar : na Estante Virtual tem a partir de 4 reais

o filme: esse é mais difícil, em dvd. tem alguns à venda no Mercado Livre, mas são meio caros. a boa notícia é que tem gratuito no youtube, vale ver. 😉