oi! meu nome é daisy e aqui eu compartilho minhas aventuras literárias (e mais), com meus filhos francisco, de 6 anos, e vinícius, ainda bebê. seja bem-vindo! Leia mais



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4 fev 2016

A Árvore das Lembranças, de Britta Teckentrup

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Destaques, Para Conversar Sobre a Morte, Para Refletir

Eu me emociono um bocado quando leio livros infantis que tratam sobre a morte – fico impressionada com a delicadeza e a beleza com que alguns conseguem tratar de assunto tão dolorido. Já falei do quanto foram importantes para o Francisco e também para mim superar a difícil perda do meu pai – e olha, seguem sendo! Volta e meia descubro um novo livro bonito sobre o assunto, é impressionante. Acho que é a época: percebemos o quanto é importante trazer o assunto também para os pequenos, não simplesmente tentar ocultar e omitir o sofrimento. E do jeito certo, com as palavras e as mediações necessárias, conversar sobre a morte e compreendê-la pode até amenizar a dor.

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“A Árvore das Lembranças” é muito mais do que um livro sobre a morte: é um livro sobre a vida, lembranças, sobre como podemos manter vivo quem amamos em nossa memória. A história se passa em uma floresta, e começa com a morte de uma raposa – que por si só já tem uma descrição que emociona:

“Ela levara uma vida longa e feliz, mas estava ficando cansada. Bem devagar, ela foi até seu cantinho favorito na clareira. Olhou para sua adorada floresta pela última vez e se deitou. Fechou os olhos, respirou fundo e caiu no sono para sempre.”

O primeiro animal que se dá conta é a coruja – fica triste, mas sabia que tinha chegado a hora da amiga. Pouco a pouco, outros amigos começam a chegar: o esquilo, o urso, o passarinho, o veado – todos se sentam em volta dela e começam a lembrar das coisas boas que viveram juntos. A coruja lembra de quando brincavam competindo para ver quem pegava mais folhas secas, o urso lembra da vez que a raposa tomou conta de seus filhotes, o esquilo recorda da vez que ela o ajudou a desenterrar nozes que no inverno anterior haviam ficado muito fundas na neve.

Enquanto conversam, saudosos, lembrando da raposa, uma plantinha brota exatamente onde a raposa ficou – lugar agora já encoberto pela neve. A cada história contada, a cada lembrança dividida, a planta brota mais forte e bonita. A pequena árvore que cresce faz os amigos entenderem que a raposa ainda está com eles: quanto mais se lembram, menor fica a dor da saudade. No final, árvore acaba crescendo tanto, mas tanto, que vira um grande abrigo pra todos os animais – e dá força para que todos sigam vivendo, com a amiga sempre viva em seus corações. 

Um livro lindo, tocante, que nos lembra da importância de celebrarmos a vida – e também de relembrar e manter viva a memória dos que já foram. Escrito e ilustrado por Britta Teckentrup, publicado pela editora Rovelle. 😉

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18 jan 2016

livros: A Democracia Pode Ser Assim e A Ditadura é Assim

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Destaques, Diversidade e Respeito, Livros, Novidades e Lançamentos, Para Refletir

A primeira vez que vi sobre esses livros foi no instagram de um amigo, há algum tempo – ele mostrava as versões espanholas deles, reeditadas pela incrível Media Vaca. Achei sensacional a ideia – permitir a conversa sobre política com as crianças através de livros infantis. “A Ditadura é Assim” e “A Democracia Pode Ser Assim” foram publicados na Espanha pela primeira no final dos anos 70; as ilustrações eram outras, mas o texto o mesmo – e incrivelmente atual, acessível. Foram resgatados e reeditados pela Media Vaca e publicados no final do ano passado no Brasil pela Boitempo (sob seu novo selo infantil Boitatá). 

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“A Democracia Pode Ser Assim”

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ilustrações e colagens de Marta Pina

No primeiro volume, a gente conhece o que é – ou melhor, o que deveria ser – uma democracia. As escolhas, o direito e a importância do voto, os diferentes partidos e seus representantes e principalmente: os direitos e deveres de todos nós. O livro não deixa de nos lembrar da importância de nos informarmos sempre e de ficarmos atentos às nossas possibilidades de escolha e aos nossos escolhidos:

“(…) é muito importante que todos estejam sempre bem informados. E que todos vigiem tudo, para que não seja um só que vigie todos. Pois é muito fácil enganar as pessoas com palavras bonitas, com dinheiro e com promessas que nunca serão cumpridas.”

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“A Ditadura É Assim”

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ilustrações de Mikel Casal

Já no segundo volume, a ditadura nos é apresentada. O tom é divertido, mas o papo é sério – quem é o ditador, como ele toma o poder, seus interesses. O povo que o teme, que é explorado e que é censurado em tudo – até no direito de pensar e questionar. Como bem lembra Ruy Braga no final do livro, em uma época tão recente em que algumas pessoas saíram às ruas do Brasil pedindo pela volta da ditadura militar, é bom lembrar bem o que isso significa.

As ilustrações de ambos os livros são coloridas e divertidas – no primeiro, repleto de colagens antigas e misturadas, obra da artista Marta Pina. No segundo, os desenhos de Mikel Casal são mais caricatos, com muita cor e jeitão engraçado. O bacana é que os textos são acessíveis, fáceis e muito divertidos de ler com as crianças – uma introdução deliciosa e essencial à cidadania, à vida em sociedade e à política.

Esses são os dois primeiros volumes da série, formada por 4 títulos (e intitulada “Livros Para o Amanhã) – os dois próximos tratam questões sociais e de gênero: “O Que São Classes Sociais?” e “As Mulheres e Os Homens”, e saem em 2016. Ah, a faixa etária sugerida pela editora é dos 8 aos 10 anos – mas não precisa se restringir a isso não (aliás, não precisa se restringir a idade mínima para literatura nunca, vamos combinar!): aqui em casa a leitura com o Francisco,  que tem seus 5 anos, gerou interesse, perguntas e divertiu. Um livro pra ainda ler, reler e se questionar muito. 😉

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A DEMOCRACIA PODE SER ASSIM

Texto: Equipo Plantel

Ilustrações: Marta Pina

Edição: Boitatá, 2015

A DITADURA É ASSIM

Texto: Equipo Plantel

Ilustrações:

Edição: Boitatá, 2015

 


24 jun 2015

7 livros para conversar sobre a morte e outros assuntos difíceis

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Destaques, Listas de Livros, Livros, Para Conversar Sobre a Morte, Para Refletir

Uma das coisas que descobri desde que me apaixonei junto com o Francisco pela boa literatura infantil é que ela tem um poder especial: consegue deixar mais leve os assuntos mais difíceis. A morte é um deles – já falei algumas vezes sobre livros que muito ajudaram a abordar e procurar entender esse assunto por aqui. Aqui, sete livros mais do que especiais, que aqui em casa renderam leituras e conversas:

1. HARVEY – COMO ME TORNEI INVISÍVEL 

Já fiz um textão longo sobre o Harvey aqui, na primeira vez que li o livro – foi uma supresa enorme, não imaginava o que me esperava ali dentro. Esse é um livro pra crianças mais velhas, acima de 9 anos, pela indicação da editora – mas é um livro pra emocionar muito adulto também. Na história, o menino Harvey e o irmão Cantin perdem o pai. Chegam em casa depois de brincar e deparam-se com a ambulância levando o corpo, a mãe as prantos – e então Harvey (o livro é na voz dele) tem que lidar com a ausência do pai. Entrar em casa, encarar o ambiente vazio (Harvey, entre outras coisas, não entende como o carro do pai ainda está na garagem se ele não está lá), a solidão da primeira noite. Harvey vai se sentindo pequeno sem o pai, se tornando invisível. As ilustrações acompanham a história lindamente – e ao folhear o pequeno livro, a sensação é de estar acompanhando um filme. Emocionante, triste, bonito demais. Da editora Pulo do Gato.

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2. A PRECIOSA PERGUNTA DA PATA

Esse livro me foi indicado quando falei aqui pela primeira vez sobre o assunto, a morte – e foi um dos mais bacanas que li com o Francisco. É um livro bacana de ler com os mais pequenos (no site da editora a indicação é a partir de 1 ano) – na primeira vez que lemos, o Francisco acompanhou atento, fez várias perguntas e terminou com um sorriso. Lemos algumas noites seguidas, a pedido dele, e conversamos sobre o que será que acontece quando morremos (o Francisco jura que o vovô virou passarinho, e que já cruzou com ele na escola). É essa a tal pergunta da pata: ela acaba de perder um filhotinho, e comparece a uma reunião onde os bichos debatem assuntos difíceis querendo saber isso, para onde vamos quando não estamos mais aqui. Cada um dá sua resposta, conforme o que imagina – o rio vai virar mar, o sol não vai sentir mais tanto calor, o rato voltará enorme como um elefante. Apesar do assunto difícil, o livro é leve, fácil de ler. Escrito pela belga Leen van den Berg. Nossa cópia emprestamos da Biblioteca Pública – devolvi o livro com um aperto no coração, admito! Da Brinque-Book.

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3. O PATO, A MORTE E A TULIPA

Outro livro que já passou por aqui antes – e esse faço questão de trazer de volta, porque foi um dos livros mais importantes que já passaram pelas nossas mãos. Também, assim como o livro aqui em cima, fez a gente conversar um bocado. Um dia o pato percebe que há uma senhora caveira andando junto dele  – já fazia tempo que ele não se sentia muito bem, e ele resolve perguntar o que ela faz por ali. Ela então responde que é a morte – e diz que anda por perto, na verdade, desde que ele nasceu, mas que agora é hora de levá-lo. O pato fica inconformado, não quer ir embora – e a morte, com muita calma e paciência, vai o acompanhando e respondendo suas perguntas. Os dois se tornam amigos próximos – chegam a dormir abraçados, o pato aconchegado à morte. Até que ele não acorda – e aí, o final, me emociona sempre: a morte deita o pato sobre o rio e dá um leve empurrãozinho. Por pouco não fica triste – mas pensa: assim é a vida. Escrito e ilustrado por Wolf Erlbruch, publicado no Brasil pela Cosac-Naify.

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4. A GRANDE QUESTÃO

Esse é outro livro de Wolf Erlbruch, o autor e ilustrador do livro aí em cima, O Pato, A Morte e a Tulipa – e vou contar, é muito difícil não não se encantar pelas obras do alemão! Aqui, a grande questão é a pergunta: afinal, por que estou aqui? A cada página dupla, um personagem diferente responde. O gato tem sua resposta, o soldado, o coelho – e também o pato e a morte, ali, do livro anterior. Algumas são cômicas, outras emocionam, todas são criativas demais e acompanham uma ilustração divertida. O comilão diz: “você está aqui para comer bem, aí está o porquê.”; a pedra: “você está aqui para confiar”; a morte: “você está aqui para amar a vida”. Tão bonito! Também da Cosac-Naify.

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5. FICO À ESPERA

Foi o pessoal da Biblioteca Pública quem me indicou esse livro, e emprestamos também ele de lá – eu conhecia o Davide Cali do livro “O que é o Amor?” e do “Um Dia um Guarda-Chuva”, ambos portugueses. Que livro diferente! Primeiro, o formato: tem a forma de um envelope, retangular – deixa logo a gente curioso. Dentro dele ilustrações delicadas e um fio de lã vermelho, que percorre o livro todo e acompanha a vida de um garoto: sua infância, adolescência, fase adulta e velhice. Cada momento, uma espera: ele está à espera e crescer, do beijinho de dormir, da partida do trem, da guerra, do nascimento do filho. Uma leitura deliciosa. Ilustrado pro Serge Bloch, publicado pela Cosac-Naify.

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6. EU ME PERGUNTO…

Se o livro “A Grande Questão” traz as respostas mais divertidas, O “Eu me pergunto…” traz perguntas, e as mais difíceis perguntas – e cabe a nós conversar e procurar as respostas. O que é o tempo? Tudo que já aconteceu desaparece para sempre? Foi Deus quem criou os seres humanos? Ou fomos nós que criamos esse Deus em nossas cabeças? – essas são algumas delas. Um convite a à filosofia, para ler com crianças mais velhas. Escrito pelo norueguês Jostein Gaarder, o mesmo autor de um livro que muita gente curte demais: O Mundo de Sofia. Publicado pela Companhia das Letrinhas.

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7. O ANJO-DA-GUARDA DO VOVÔ

Arrisco dizer que esse é preferido do Francisco, aqui dessa lista – especialmente porque ele se reconheceu na história do garotinho do livro, que ouve atento histórias do vovô, deitado na cama do hospital. As ilustrações e o texto se complementam, e está nos desenhos um detalhe precioso: o avô vai contando do que já fez durante a vida, das coisas que aprontou, do que passou. Mas em cada situação de perigo pela qual ele passa, um anjo o acompanha, zelando pela sua vida: segura um ônibus que quase o atropela, ajuda ele a carregar peso, afasta nuvens chuvosas, até faz papel de cupido. No final, o vovô fecha os olhos – e seu anjo agora segue acompanhando o netinho, sem que ele perceba. É de encher os olhos de lágrimas a cada leitura, encher o coração de saudade, mas também de conforto. Mais um livro lindo e tocante da alemã Jutta Bauer, a mesma autora e ilustradora do Mamãe Zangada. Publicado pela Cosac-Naify

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