Continuando nossa conversa sobre contos de fadas hoje a conversa é sobre um só homem e sua obra: Charles Perrault – quem afinal era esse homem de penteado tão pomposo e por que ele é considerado por alguns o pai dos contos de fadas?

Quem foi e o que fez Charles Perrault?

Numa biografia rápida dele, Perrault nasceu em Paris, em 1628 – ou seja, meados do século XVII. Perrault era um homem da alta burguesia, estudioso, formado em Direito, muito próximo do poder – inclusive do próprio Luís XIV, o Rei Sol. Trabalhou como funcionário do governo por muito tempo e teve várias funções diferentes, entre elas a de “controlador geral das construções dos jardins, das artes e das manufaturas da França”, mas sempre teve inclinação para a literatura. Desde adolescente já escrevia e seguiu escrevendo e publicando contos, estudos, sátiras e poemas até o fim da sua vida, em 1703.

Perrault foi membro da Academia Francesa de Letras e se envolveu em uma briga intelectual na própria academia que depois ficou conhecida como A Querela dos Antigos e dos Modernos: alguns escritores defendiam o modelo clássico de escrita, métrica, linguagem, e outros lutavam por uma escrita mais moderna – e entre esses últimos estava quem? Ele mesmo, Charles Perrault.

Mas a verdade é que essa não era uma luta só literária, era política também. Perrault perdeu com ela seu posto no governo e se dedicou inteiramente à literatura. Foi só em 11 de janeiro de 1697, quando Perrault tinha já quase 70 anos, que ele lançou sua obra talvez menos pretensiosa, mas que o tornaria mundialmente conhecido: “Histórias ou Contos do Tempo Passado: com Moralidade” – ou então “Contos da Mamãe Gansa”, como ficou mais conhecida.

Esse livro é rodeado de alguns mistérios, como por exemplo quem assina ele, que é seu filho Pierre d’Armancourt. Uma das prováveis razões é que Perrault não tinha muita confiança em ligar seu próprio nome a histórias mais populares, não tão pomposas como sua cabeleira ou suas publicações anteriores. Mas é nele que surgem Chapeuzinho Vermelho, A Bela Adormecida, O Gato de Botas, Cinderela, pra só citar algumas das histórias que o tornariam tão famoso.

Esses contos eram recolhidos do povo, circulavam oralmente por toda parte, entre os camponeses e também dentro dos palácios: estavam na moda na época, e eram contados em voz alta entre bêbados, crianças e principalmente mulheres dentro da corte. O que Perrault fez foi selecionar alguns, escrevê-los de forma mais literária (belíssima, inclusive!) e adicionar uma moral ao final, às vezes em forma de conselho, às vezes de forma brincalhona. Ele acreditava que esses contos podiam entreter, mas também acreditava que podiam alertar para algumas coisas. Chapeuzinho Vermelho, por exemplo, era um conto de “alerta” para jovens moças. Ela inspirou muitas outras versões, mas a sua é a menos contada e reproduzida hoje em dia por conta da sua “crueldade”.

Na versão de Perrault o lobo come a vovó, se deita no lugar dela, convida a chapeuzinho pra se deitar com ele e…come a chapeuzinho. Fim. Mas se vocês acham essa versão cruel, vocês não imaginam como era a que circulava antes de Perrault e que provavelmente foi sua inspiração principal, que o Robert Darnton vai contar no texto Histórias que os Camponeses Contam: O Significado de Mamãe Ganso, do livro O Grande Massacre dos Gatos (que mais uma vez: recomendo MUITO pra quem quer estudar o assunto). Nessa versão, o lobo mata a avó, serve sua carne e sangue para a menina comer e beber, se deita na cama e pede que ela tire a roupa pra também se deitar com ele e então devorá-la. TENSO.

Assim como Chapeuzinho Vermelho já foi “amenizada” pelo Perrault quando foi para o papel, A Bela Adormecida também sofreu algumas mudanças já na versão dele. Em uma das versões mais antigas dessa história, escrita pelo Gianbatista Basile no início do século XVII, na Itália, no livro O conto dos Contos, a Bela Adormecida é encontrada por um rei que é casado. Ele se apaixona por aquela bela mulher que dorme e a engravida ainda dormindo.

Perrault já faz diferente: ele faz com que a princesa acorde e se apaixone pelo príncipe no momento em que desperta. Os dois mantém então um relacionamento secreto, porque a mãe do príncipe é de uma linhagem ogra e muito violenta. Um dia o pai dele morre, ele assume o reino e traz mulher e filhos (eles têm dois, Aurora e Dia). Mas a mãe aproveita a primeira viagem do então rei para solicitar que o mordomo cozinhe as crianças para ela em um molho muito saboroso… e bem, é claro que eu vou deixar pra que vocês descubram o final. É ótimo!

Mas vou dar uma boa dica: esse conto, A Bela Adormecida no Bosque, tem uma edição ilustrada no Brasil que eu curto bastante, publicada pela Global. Não tem grandes luxos, é brochura, traz papel brilhante, mas a tradução da Ana Maria Machado é lindíssima, o texto é muito bom e as ilustrações são super clássicas, do Gustave Doré – clássicas e inconfundíveis!

E já que a gente está falando de versões ilustradas dos contos de Perrault, uma das versões que mais amo é BARBAZUL: assim mesmo, tudo junto. Barba Azul é um dos meus contos preferidos dele, um conto de terror, apesar de ter um final feliz (para a protagonista, não para as outras mulheres do tirano).

A adaptação e as ilustrações dessa edição são da Anabella Lopez – super diferentes, modernas, com capa dura e mito capricho. Mas o que acho especialmente interessante nessa edição é que a autora-ilustradora vai tomar a liberdade de fazer um adendo à história: ela enterra as outras esposas do Barba Azul e planta flores vermelhas em seus túmulos, para que as mulheres que sofreram violência doméstica sejam sempre lembradas.

Ela não altera o texto do Perrault, não altera a história para que essas mulheres não morram; ela poderia muito bem ter feito isso, mas não – preferiu deixar a história tal como foi escrita (com sua emoção, sua tensão, sua fantasia tão presentes), mas aproveitou para fazer a gente lembrar que as mulheres sofriam violências terríveis no século XVII e ainda sofrem hoje em dia. Ou seja, ela nos entrega o clássico, mas aproveita para contextualizar, problematizar e fazer a gente refletir.

A verdade é que é difícil encontrar contos sozinhos ilustrados do Perrault – com qualidade então, nem se fala. Muito mais comum é encontrar coletâneas – e aí sim, há as mais diferentes  possíveis! Uma que gosto muito e recomendo é uma edição bem atual, com tradução do Leonardo Fróes, publicada atualmente pela Sesi-SP, chamada Contos da Mamãe Gansa. Ela traz as morais de Perrault ao final de cada história (o que acho muito divertido) e o mais legal: cada uma delas recebe um estilo de ilustração completamente diferente, criação do estúdio gráfico espanhol Milimbo.

Vale lembrar há tantas edições diferentes desses contos porque eles são domínio público – então qualquer um pode publicá-los, do jeito que quiser. Por isso é sempre bom verificar antes de mais nada aquilo que canso de dizer pra vocês: a qualidade do texto, dos apêndices (acho sensacional quando os livros entregam mais pra gente além dos contos em si), do projeto gráfico, da diagramação e das ilustrações. Quanto maior o capricho e cuidado com esses detalhes, melhor a experiência da leitura!

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