Eis que nossa conversa sobre os contos de fadas segue hoje com os Irmãos Grimm, que da “trindade” dos contos (Perrault, Grimm e Andersen) talvez sejam os mais conhecidos, contados, adaptados e lembrados mundo afora!

Irmãos Grimm, quem são eles?

Os irmãos Grimm são dois: Jacob, nascido em 1785, e Willhein, nascido já no ano seguinte, em 1786, ambos na Alemanha. Eles eram de uma família grande, de nove irmãos, mas três deles faleceram ainda crianças e o pai morreu muito cedo também. Jacob e Wlilhen logo se tornaram os responsáveis pela família e tiveram uma vida bastante difícil, mas tinham familiares influentes que os ajudaram em muita coisas, como por exemplo a entrar para a universidade.

Ambos cursaram direito, foram bibliotecários, depois professores, mas o que interessa aqui pra gente é que eram super estudiosos, grandes pesquisadores e tinham um interesse enorme na cultura, na língua e no folclore alemão. Uma das obsessões dos irmãos era buscar, entender as origens, registrar e assim valorizar toda essa tradição. Foi assim que começaram a escutar e a transcrever esses contos que depois os tornaram tão famosos – assim como Perrault, eles não são os autores dos contos, mas sim compiladores.

Eles ouviam camponeses contadores que iam até sua casa contar suas histórias,  ouviam as irmãs, as amigas das irmãs, os comerciantes, as babás, ouviam a galera toda e registravam tudo:

a contadora Dorothea Viehmann e os irmãos Grimm, início do século XIX

Os Grimm tinham muito medo de que se essas histórias se perdessem, de que as pessoas deixassem de contá-las oralmente. Acreditavam na importância da ficção e da fantasia e encontraram na publicação dessas histórias uma forma de preservá-las e divulgá-las. Mas, diferente do Perrault, que compilou em torno de uma dezena de contos, os irmãos Grimm compilaram mais de 200 contos. Sim, duzentos contos.

Em 1812, depois de 6 anos de árduo trabalho de pesquisa, eles lançam o primeiro volume do “Contos Maravilhosos Infantis e Domésticos” com 86 contos e em seguida, em 1815, eles lançam o segundo volume, com mais 70 contos. Esses dois volumes juntos formam a primeira edição desse grande clássico que seria ainda muito mudada e transformada pelos próprios irmãos, conforme a demanda da época.

Com o passar dos anos, e conforme iam percebendo a recepção das pessoas, dos críticos e das crianças principalmente, eles próprios tiravam algumas referências sexuais, amenizavam alguma violência, acrescentavam alguma referência cristã, faziam desaparecer e reaparecer histórias. A última edição desse grande volume foi a sétima, publicada em 1857, e trazia 211 histórias. Ou seja, 45 anos depois da primeira eles ainda estavam fazendo suas alterações – e muito provavelmente estariam fazendo o mesmo hoje se estivessem vivos, ufa!

Com mais de duas centenas de histórias escritas, vocês podem imaginar a riqueza da obra desses irmãos, que vai muito além da Chapeuzinho Vermelho, da Bela Adormecida, Rapunzel, e todas essas que a gente já ouviu falar tantas vezes. Uma das edições mais lindas dos seus contos publicadas aqui no Brasil era da Cosac Naify, infelizmente hoje esgotada. Não só o conteúdo dela era excelente, como o projeto gráfico também. Foi publicada em 2012, no aniversário de 200 anos da primeira edição dos irmãos Grimm e em dois volumes, como era lá atrás: o tomo 1 de 1812, o tomo 2, de 1815.

A boa notícia é que há outra edição excelente com a mesma tradução da Cristine Rohrig, feita direto do alemão. A da editora 34 é bem recente, e apesar da aparente simplicidade, tem muita qualidade: também traz os dois primeiros volumes, agora juntos, e o pósfacio (ótimo, com informações preciosas!) do Marcos Mazzari.

Essas edições são interessantes porque trazem quase todos os contos dos irmãos, mas vão existir muitas outras que fazem seleções bem específicas. A da Dra. Clarissa Pinkola Estés, por exemplo, publicada pela Rocco, é excelente. Nela, a autora do famoso “Mulheres que Correm Com os Lobos” faz questão de não compartilhar os contos que considera muito cruéis ou que reforce alguns preconceitos. O prefácio é lindíssimo e as ilustrações também, do artista Arthur Rackham.

A verdade é que houve uma seleção natural dentro desses contos em todos esses anos, só pode – e se a gente só se lembra de alguns, é porque esses têm sua importância e valor, diferente de outros. É interessante conhecer todos? Claro que é! Mas não é imprescindível, de forma alguma.

Branca de Neve, por exemplo, é um dos contos dos irmãos Grimm mais lidos, relidos, repetidos, encenados, copiados e tudo mais mundo afora, e um dos que eu, particularmente, acho mais fascinantes e lindamente escritos. Mas na versão deles, de 1812, muitas coisas são diferentes do que a gente conhece em dia. Por exemplo, nela, é a mãe da Branca de Neve quem encomenda ao caçador que ele traga seu fígado e seus pulmões para que ela os coma – ela não suporta a beleza da própria filha. O caçador leva a garota para a floresta, mas não tem coragem de matá-la.

Branca de Neve corre e encontra os anões, que em troca do serviço da casa aceitam que ela more ali. Mas a rainha logo descobre que ela segue viva e segue diversas vezes disfarçada atrás da moça para tentar matá-la: uma vez vendendo um cordão, outra vez vendendo um pente envenenado e por fim, a maçã envenenada.

Os anões ficam completamente abalados quando encontram Branca de Neve desfalecida e a colocam num caixão de vidro para que possam continuar a admirá-la. O príncipe chega, se apaixona por ela ainda morta, leva o cadáver pra casa (sim!) e é quando os criados estão movendo o caixão de lá pra cá que o pedaço da maçã sai da garganta e ela volta à vida. Bizarro? Um tanto quanto. Maravilhoso? Também.

Bom, a gente nem tem como precisar a quantidade de mudanças que essa versão já sofreu –  a versão em desenho animado da Disney por exemplo, dos anos 30, é uma versão lindíssima. Já tem um século (!) e é a versão que ainda habita nosso imaginário: a roupa da Branca de Neve, por exemplo, aquele vestido amarelo, azul, com lacinho vermelho na cabeça, foi a Disney que inventou.

Mas uma versão em livro, ilustrada, atual, que eu gosto muito é uma pequenina, publicada pela editora Pulo do Gato, com texto do Gil Veloso e ilustrações do Igor Barrenetxea. O texto é um bocadinho diferente: o Gil escolheu que a madrasta fosse a vilã e não a mãe, e também colocou uma boa dose de humor – o espelho, por exemplo, é um barato!

Mas o que mais curto nesses contos é o fato de que, lembrando, são histórias da tradição oral, histórias muito boas de se contar em voz alta e que não precisam necessariamente do suporte do livro. É uma delícia encontrar versões ilustradas e maravilhosas? Ô se é! Mas as crianças merecem é conhecê-las, independente da forma que cheguem até elas. Por isso, é um bom exercício a gente procurar contar essas histórias como a gente se lembra delas, resgatar esse hábito que os pequenos simplesmente AMAM e que os Grimm tanto temiam que fosse se perdendo.

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