Eis que começa hoje a primeira série do canal: sobre contos de fadas. Pra ela, fiz uma pesquisa lá no instagram: perguntei se vocês preferiam um videozão ou vários videozinhos, e a segunda opção ganhou de lavada. Bem, não vão ser exatamente videozinhos, né, que vocês sabem que falo muito, ainda mais quando o assunto rende. Mas vão ser legais, prometo!

Mas contos de fadas…fala sério?!

Os contos de fadas são um gênero meio desprezado da literatura, meio jogado às traças – primeiro, porque a gente geralmente pensa assim: ah, chapeuzinho, história pra fazer criança dormir?! Ou então, mais comum ainda: século XXI, feminismo, nós mulheres lutando pelo nosso espaço na sociedade e a gente vai querer ler sobre Cinderela, sobre Branca de Neve, sobre a princesa que precisa de príncipe para ser resgatada….afemaria, qual a importância disso?

Pois aí que tá – mal começou o vídeo e a gente já cometeu dois grandes equívocos. Primeiro, porque os contos de fadas nunca foram feitos para as crianças, nunca. Os contos de fadas nada mais são do que histórias da tradição oral. Onde existiam humanos, existiam contos de fadas. Onde existiam humanos, existia um homem ou uma mulher, na maioria das vezes uma mulher, que reunia todos em torno da fogueira e contava histórias que passavam de geração pra geração e que tornavam um pouco menos difíceis as longas noites de medo, de frio e de fome.

Nesse público, lógico, também havia crianças – mas há séculos, ou melhor, há milênios, as crianças nem eram vistas como crianças: ainda não existia o conceito de infância, que é um conceito bastante moderno. O segundo equívoco é que essas histórias têm uma importância enorme sim: são histórias que resistem. Com muitas mudanças e com algumas mutilações, fato, mas são histórias que permanecem porque fazem parte do imaginário coletivo e que, querendo ou não, tratam dos medos e dos desejos mais humanos que existem.

Justamente por serem contos tão antigos, que circulam há tanto tempo (muito antes inclusive da palavra escrita), é muito difícil, ou melhor – é impossível saber quais suas versões originais. O que a gente conhece são as versões que alguns escritores compilaram e escreveram da sua maneira, principalmente Perrault, irmãos Grimm e Andersen, considerada a trindade responsável pela difusão desses contos mundo afora. Mas é importante saber que muito antes deles esses contos já circulavam, alguns já inclusive na forma escrita.

Focando aqui no contos ocidentais, havia o Giambattista Basile, por exemplo, que na Itália do final do século XVI, início do século XVII, escreveu O Conto dos Contos, ou Pentameron – uma coletânea de histórias recolhidas do povo. Nesse livro já aparecem Cinderela, O Gato de Botas, Rapunzel, em versões mais primitivas, sim, mas que seriam muito transformadas mais para frente. Também mulheres escreviam contos de fadas, como Mademoiselle L’Heritier, Mademoiselle de La Force ou Madame d’Aulnoy – essa última, inclusive, antes mesmo de Perrault.

Digo isso porque muita gente me pergunta sobre essas origens, sobre a importância de se contar as histórias “originais”, um conceito muito relativo quando a gente fala de contos de fadas. Pois digo pra vocês que cada vez mais acredito que isso não importa tanto.

Gosto muito dos símbolos e significados que psicanalistas como Bruno Bettelheim vão encontrar nesses contos mais tradicionais, como faz no A Psicanálise dos Contos de Fadas, o primeiro livro a abordar o assunto sob um olhar psicanalítico e que muito ajudou para que a gente resgatasse essas histórias, trouxessem elas de volta para o lar.

Mas também gosto muito da forma flexível e confortável que Diana e o Mario Corso abordam no Fadas no Divã – Psicanálise nas Histórias Infantis, deixando a gente mais relaxado diante desses contos, ressaltando a importância da ficção em geral, do ato de contar histórias, das narrativas, das conversas que elas podem suscitar.

É o próprio Bettelheim, aliás, quem vai dizer:

“O prazer que experimentamos quando nos permitimos ser sensíveis a um conto de fadas, o encantamento que sentimos, não vem do significado psicológico de um conto (embora isso contribua para tal) mas de suas qualidades literárias – o próprio conto como uma obra de arte. Ele não poderia ter seu impacto psicológico sobre a criança se não fosse primeiro e antes de tudo uma obra de arte.” (Bettelheim)

Então, talvez mais importante do que as suas origens, na hora de escolher uma edição, seja verificar sua qualidade literária, se traz autoria, verificar as ilustrações, a diagramação e o projeto gráfico, que também enriquecem a leitura, e também se mantém os conflitos, as emoções, as tensões que fazem deles tão interessantes e intrigantes há tanto tempo. Evitar a todo custo aqueles contos que foram totalmente higienizados – de forma bastante pretensiosa, inclusive – e que vamos combinar: não têm graça nenhuma, não trazem nada para o leitor.

O medo, por exemplo, é essencial em muitos deles, e não faz sentido tirá-lo para proteger as crianças. O medo é bom, ele faz a gente pensar em artimanhas pra sobreviver, faz ser criativo – a psicanalista Maria Rita Kehl, aliás, fala sobre ele no prefácio que ela escreve para o Fadas no Divã:

“As crianças continuam interessadas no mistério (…), são fascinadas por tudo que despertem nelas a vasta gama de sentimentos de medo. O medo é uma das sementes privilegiadas da fantasia e da invenção (…). Em função dele, desenvolvemos também o sentido da curiosidade e a disposição à coragem, que superam a mera função de defesa da sobrevivência, pois possibilitam a expansão das pulsões de vida.” (Kehl)

Isso, aliás, me lembra uma coisa: a espanhola Lara Meana, que é escritora, pesquisadora, livreira, especialista em literatura infantil, disse uma vez em curso algo que nunca esqueci e que sempre repito por aí: sobre a importância da criança poder sentir o medo do lobo no colo da mãe, de vivenciá-lo através do simbolismo, de uma boa história – isso permite que ela reconheça e se proteja um dia dos lobos na vida real.

Então, vamos deixar os lobos, as bruxas, os ogros dentro das histórias –  eles são extremamente importantes, é nelas o lugar deles. E também vamos deixar as princesas, as Brancas de Neve e Belas Adormecidas resgatadas por príncipes: essa foi outra pergunta que apareceu sob diversas formas, e que acho muito pertinente.

Mas é sempre importante a gente lembrar que se tratam de textos literários. Quando a gente lê literatura, a gente faz um pacto quase inconsciente com o autor: a gente sabe que aquilo tudo não é verdade, mas finge que acredita para que a história se desenrole. A linguagem na literatura é outra, tem outro significado, muito diferente daquele da vida real, e e as crianças são perfeitamente capazes de usufruir e entender isso desde muito pequenas, desde que tenham contato com literatura.

Quem lembra a gente disso é a Ana Maria Machado no livro Como e Por Que Ler Os Clássicos Universais Desde Cedo. Na leitura dos contos de fadas, ou de qualquer outro texto de literatura, é perfeitamente cabível o CONTEXTO e a CRÍTICA. Hoje é cômico e até absurdo pra gente, na nossa sociedade, falar de mulheres que só sobrevivem quando resgatadas por seus homens, mas não foi sempre assim. A vida no século XVI, XVII, de onde vêm os principais registros desses contos, era outra, completamente diferente – por isso é importante contextualizar.

Aliás, um texto incrível, que vai falar disso e conversar com o Bettelheim (na verdade, vai dar uns bons cutucões nele!) é o “Histórias que os camponeses contam: o significado de Mamãe Ganso”, do livro “O Grande Massacre dos Gatos”, de Robert Darnton. Nele, Darnton lembra que essas histórias são cruéis em sua maioria porque retratavam a vida da época, que era absolutamente cruel.

E também vale fazer a crítica: alguma coisa no conto incomoda, alguma coisa gera desconforto? Comenta, questiona, problematiza! O que você faria se fosse a Cinderela? Você acha certo isso que o príncipe fez, beijar a princesa enquanto ela dormia? Aproveite a riqueza desses símbolos e dessas histórias  para conversar com as crianças.

Ou então, aproveite para remodelar os contos, para brincar com eles, que são e sempre serão mutantes. Resgate a camponesa ou ou camponês contador que há dentro de você e conte a história do jeito que quiser, que tiver vontade, da forma que você se lembra – é um exercício e tanto!

Essas histórias são nossas, vamos nos apropriar delas! <3

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