Quando Você Não Está Aqui, de María Hergueta

Na capa, duas crianças sentadas: uma rabiscada de vermelho, a outra ao lado, o lápis aos seus pés. “Ele não gosta dela, né?!“, me disse o Francisco assim que pegamos os livros nas mãos. E eis que nosso personagem começa logo dizendo: “Eu gosto quando você não está aqui”.

É que quando ela não está por perto, ele pode tudo: é o rei da casa, sobra muito mais espaço na grande cama, todas as coisas dela são dele. E assim segue…é tanta coisa boa quando ela não está! É um egoísmo inocente, quem nunca sentiu algo parecido? Mas a tão feliz solidão logo se transforma: afinal, sem ela ali, de quem ele vai se esconder? Em quem ele vai botar a culpa? Quem vai lhe contar histórias?

O livro é todo na voz do garoto, e é lindo como é ele próprio quem vai descobrindo que com a irmã é tudo mais divertido – o final é uma graça, puro sorriso! Francisco terminou o livro constatando: “ele tá é com saudades!”. 

Lindíssimas também são as ilustrações da espanhola María Hergueta, que escreve e ilustra a obra. São aconchegantes, bonitas, numa muito original paleta de cores – há texturas, estampas, escondem detalhes! Muito mais do que um livro sobre a (às vezes nada fácil) relação entre irmãos, um livro sobre a descoberta da individualidade, da solidão, da saudade e das delícias de se compartilhar a vida. Surpreendente! Da Editora Pulo do Gato.

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Livro Clap, de Madalena Matoso

Se você tem um bebê por aí, apenas corra adquirir esse livro. Se você tem uma criança maior, talvez também seja uma boa – até agora nunca vi o Francisco, quase 7 anos, não catar o livro pra brincar toda vez que o encontra pela casa. E se você é grande, mas curte um livro ilustrado muito do original, um projeto gráfico diferente de tudo, tá aí, essa é outra razão. Pronto!

Nossa cópia chegou por aqui através do clube de leitura A Taba, e confesso, eu já namorava o Livro Clap virtualmente há algum tempo. É que ele saiu primeiro lá em Portugal, pela editora Planeta Tangerina, dona de boa parte da minha lista de desejos livrísticos. A sorte é que esse ano a Companhia das Letras publicou a obra por aqui, e numa edição bem bacana!

Esse é um livro pra brincar, pra ler de mil jeitos: logo que abrimos as primeiras páginas, somos convidados a fechar novamente o livro, abri-lo, fazer barulhos. Cada ilustração convida a uma ação: são pratos que se batem, um casal que se beija, uma sanfona que toca. Cabe ao leitor o teatro todo: aqui em casa, quanto mais animado (por vezes até escandaloso), mais arranca risadas do Vinícius (11 meses), que fica atento – e ainda tenta fazer igual! Super interativo, é um livro pra ser lido assim, por pequenos, médios e grandes – pra ser brincado mil vezes! 💛

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ps: conheça outros livros interativos bacanas que já passaram por aqui!

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A Alma Secreta dos Passarinhos, de Paulo Venturelli

Ha muitos anos (nem queiram saber quantos, rs), enquanto estudava jornalismo na UFPR, tive a chance de fazer uma matéria optativa muito legal: literatura infanto-juvenil. O professor era ninguém menos que Paulo Venturelli. Problema é que naquela época, nos meus 19, 20 anos, eu acabei levando a matéria como a faculdade toda, confesso: um tanto quanto nas coxas. Que vacilo! Hoje, paixão pela literatura infantil e juvenil despertada, um pouco (mas bem pouco, vai) de maturidade alcançada, eu adoraria poder assistir novamente às suas aulas. Mas Paulo Venturelli se aposentou da universidade já faz alguns anos – a sorte é que hoje escreve livros preciosos.

“A Alma Secreta dos Passarinhos” é sua obra mais recente, lançada pela editora Olho de Vidro, aqui de Curitiba – numa edição, vale dizer, de encher os olhos! Capa dura, páginas grossas, aquele capricho que um bom livro merece. Na história, acompanhamos um garoto curioso, determinado a conhecer Deus. Ele já havia ouvido dizer que os passarinhos eram sua alma sobrevoando a terra, e um dia põe-se de tocaia para tentar capturar um pássaro nas mãos. Consegue, sente seu pequeno coração acelerado, sua agonia e medo – e ali tem uma reflexão.

É um livro delicado, como as ilustrações de Elizabeth Teixeira que acompanham todo o texto poético de Venturelli. Delicado, mas ao mesmo tempo profundo, intenso que só – nada de “papinha literária”, como diz o próprio autor. Uma história que desafia e provoca, linda de morrer!

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