Você Conhece? #2 – Catarina Sobral

Se no primeiro “Você Conhece?” dividi com vocês o trabalho de um senhor muito maluco (e importante!) da literatura infantil, hoje divido uma mulher – uma jovem portuguesa altamente talentosa chamada Catarina Sobral.

prazer, Catarina Sobral! (foto do Google)

Catarina Sobral nasceu em 1985, em Coimbra – estudou design e ilustração e aos 26 anos publicou seu primeiro livro infantil. Na verdade, ela mesma questiona o título “infantil” – para ela, um bom livro pode ser lido tanto por adultos como por crianças, sem distinção de idade. É o que mais admiro em seu trabalho: ela pensa o livro ilustrado como um objeto de arte, como um todo. E faz cada livro lindo! Mas ei, vamos ao que interessa? Dá o play!

1.GREVE

é a greve dos pontos!

“Greve” foi o primeiro livro de Catarina Sobral e também o primeiro que conheci dela. Aliás, sabe como? Através de um desconhecido, na Livraria da Vila. Um senhor muito do simpático, ouviu meu papo apaixonado por livros infantis com a vendedora e perguntou se eu já tinha lido algum livro dela. Me mostrou aquele que encontrou na livraria no dia, e pronto, foi amor à primeira vista. Impossível não se apaixonar pelas ilustrações tão diferentes e pelas brincadeiras com as palavras que a artista portuguesa faz. Em ‘greve’, os pontos decidem parar de trabalhar – de repente não há mais pontos na gramática, na cozinha, nos procedimentos médicos, nos tricôs, nos esportes. Já pensou o caos? A edição nacional é da WMF Martins Fontes.

2.ACHIMPA

achimpíssimo, esse livro!

Sei não, mas acho que “Achimpa” talvez seja meu livro preferido da Catarina Sobral – é tão criativo, original, lindo! A história se passa toda em volta dessa palavra que um investigador descobre mas ninguém sabe o que é: achimpa. Cada um surge com uma explicação: é verbo, depois adjetivo, substantivo… e achimpa segue sem significado ou classe gramatical, ou melhor: repleta deles. Uma brincadeira divertida e apaixonante com a língua portuguesa, muito mais legal que qualquer aula de gramática, rá! Também publicado no Brasil pela WMF Martins Fontes.

3.O MEU AVÔ

o tempo voa perto de quem a gente ama

Triste, mas “O Meu Avô”, livro super premiado de Catarina Sobral, ainda não tem edição nacional – então, por enquanto, só em euro mesmo, pelo site da editora portuguesa Orfeu Negro (o que quer dizer também que é uma edição lindíssima, capa dura, folhas grossas, coisa fina!). Aqui a gente acompanha um garoto contando sobre seu avô – ele o descreve comparando-o ao Dr. Sebastião, um vizinho. Mas enquanto o Dr. Sebastião vive de olho no relógio, o avô é desses que se esquecem das horas – e vive feliz estudando alemão, fazendo pilates e piqueniques e escrevendo ridículas horas de amor por horas a fio. Uma linda reflexão sobre o tempo e sobre como ele voa quando estamos perto de quem amamos!

4. VAZIO

um homem sem recheio

“Vazio” é o único livro-imagem de Catarina Sobral – não traz texto algum, e acompanhamos a narrativa através das imagens. Traz a história de um homem que se sente absolutamente vazio. Na verdade, ele é mesmo um vazio só – vemos só seu contorno branco, chapéu, narigão. Vai ao médico, faz exames, raio-x; mas dentro dele, nada. E quem disse que algo o preenche? Nada, até um dia em que…ah, o final eu não conto não! Um livro emocionante, lindo e aberto a mil interpretações – no Brasil saiu pela Editora 34.

5.TÃO TÃO GRANDE

metamorfose infantil

Último livro de Catarina Sobral, “Tão Tão Grande” faz uma brincadeira com A Metamorfose, de Franz Kafka. Mas aqui não há baratas (a não ser na contra-capa), mas sim hipopótamos. Um dia um garoto acorda e se vê transformado num gigantesco hipopótamo! Sem entender como aquilo foi acontecer, ele resolve não sair do quarto – e aí é uma supresa atrás da outra: seus sapatos já não cabem de jeito nenhum, no espelho ele também descobre um bigode…é uma metáfora super divertida do crescimento (às vezes a jato!) das crianças e seus tropeços. Ainda sem edição no Brasil, publicado em Portugal pela Orfeu Negro.

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O Passeio, de Pablo Lugones

Passeando A Vida

Eu e o Francisco temos uma queda forte por histórias de avô. Por vezes a gente se emociona pra valer, morre de chorar, se abraça, relembra do Vô Napoleão. E através dessas leituras canalizamos uma saudade que não dá trégua, mas que também faz a gente crescer.

“O Passeio” mexeu demais com a gente. Traz a história de uma garota e seu pai. Ela aprende a andar de bicicleta com ele, e juntos, começam um longo passeio. O passeio é a vida, e a metáfora emociona página a página: há momentos em que o pai toma a dianteira, em outros a distância entre eles aumenta…também há aqueles em que é preciso seguir solo. Há silêncios – respiros que as ilustrações de Alexandre Rampazo dão ao delicado texto de Pablo Lugones. É o primeiro livro dele, editor da Gato Leitor.

Pai e filha passeiam, o tempo voa, anoitece. E “nem sempre se está preparado. De uma hora para outra, tudo pode mudar”: o pai não está mais ali, bicicleta vazia. Quando o coração aperta, quando vem mais uma vez o silêncio…vem também uma deliciosa continuidade, uma surpresa. O final é pura esperança e traz a certeza de que a aventura desse passeio deve sempre continuar. Com vento no rosto, distâncias necessárias e novas descobertas.

Quando terminamos a leitura por aqui, aos prantos (tenho um menino altamente sensível, gente!), o Fran pediu pra ler de novo. A gente leu abraçado, e a segunda vez foi meio rindo, meio engasgado: é lindo quando um livro fala com a gente tão de perto, valida nossos (às vezes tão confusos) sentimentos. “O Passeio” vai passear pela família. E voltar pra mesa de cabeceira, pra ser lido, relido, sempre passeado. <3

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O Grúfalo, de Julia Donaldson e Axel Scheffler

vini e o grúfalo

Grúfalo para grandes e pequenos

Sabe o que mais me pedem por aqui? Dica de livros para curtir com bebês. Já faz um tempo, aliás – por isso já fiz alguns especiais sobre o assunto lá no blog. E acho isso bem legal: quer dizer que tem muita mãe e pai percebendo os benefícios – e as delícias, principalmente! – de se ler com os pequenininhos.

Pois “O Grúfalo” (editora Brinque-Book) é um daqueles clássicos necessários-essenciais-imprescindíveis na biblioteca de qualquer criança. Seja bebê, seja maior. É um livro que dá pra realmente curtir com todas as idades – aqui em casa ele há muito tempo diverte o Francisco (hoje com 7 anos) e é o livro da vez do Vinícius (com 1 ano e 4 meses).

o grúfalo

 

A história é uma graça: um ratinho muito do astuto inventa um ser terrível – o grúfalo – para fugir de seus predadores. Problema é que ele não imagina que o grúfalo existe de fato – e quando se depara com o dito cujo arranja uma forma ainda mais criativa de fugir dali!

É um livro relativamente longo para ler com um bebê, fato. Talvez seja o livro mais longo que o Vini me permita ler (e olha lá) com concentração e interesse. Mas tem um segredo para isso: usar e abusar de vozes diferentes para cada personagem, ler as rimas com entusiamo. Fazer um super teatro, exagerar nas reações, brincar sem medo de ser feliz (e de ser ouvida pelos vizinhos) é a minha artimanha. Funciona sempre! 🙂

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