Lendo Com Bebês: Vida Real + Dicas

Tá aí uma coisa que todo mundo sabe que é importante, mas às vezes a gente nem sabe por onde começar. Como funciona, afinal, a leitura com bebês? Lá no canal tem vídeo com cenas e dicas reais sobre os desafios – e delícias! – de se ler com os bem pequenininhos!

  1. DIMINUA AS EXPECTATIVAS

Serião mesmo: apenas ZERE as expectativas. É delicioso, mas é desafiador ler com bebês. Por isso é bom começar tendo em mente que os bebês, especialmente aqueles que já estão engatinhando ou andando por aí, não vão parar quietos para ouvir histórias, como muita gente idealiza. É essa a forma de eles conhecerem e explorarem o mundo ao seu redor – inclusive os livros! – e se você esperar por um bebê quietinho e atento já aviso vai ser altamente frustrante.

Conforme a leitura se torna um hábito, o bebê, a criança vai entendendo que o momento do livro é um momento de escuta, e que se ele estiver concentrado nisso, a experiência é mais gostosa. Mas isso toma tempo! Até lá, acredite, você vai ler muito livro pela metade, vai conseguir ler apenas uma ou duas páginas, às vezes vai ter que ler a mesmíssima página toda santa vez por conta de alguma coisa que a criança encasqueta e curte ali…e ufa, é assim mesmo!

  1. AFETO E DEDICAÇÃO

Lembre-se que mais do que qualquer outra coisa nessa vida, ler é um ato de amor. No momento em que você está lendo com uma criança, seja ela um bebê ou uma criança maior, você está se entregando àquele momento, você tem que se entregar a ele. Não tem como ler com uma criança com um olho no celular, outro na televisão. Essa entrega é mais importante que qualquer livro que você tenha em mãos, é única. 

Falo isso de uma experiência muito pessoal minha, porque as minhas memórias leitoras, da minha infância, envolvem muito mais o carinho do momento, o aconchego da companhia dos meus pais, do que os livros em si. Procuro repetir o mesmo com meus filhos – é nossa pausa, é nosso momento. Por isso, entregue-se!

  1. LER TAMBÉM É BRINCAR

Uma das coisas mais maravilhosas que descobri quando o Fran era pequeno foi que ler era uma forma de brincar também! Nunca fui muito das brincadeiras, tenho umas amigas que são super criativas nas brincadeiras com os filhos, inventam altas coisas – eu não sou, não consigo. Por isso foi tão divertido perceber que os livros eram incríveis para brincar, para fazer caras e bocas, vozes, barulhos…e divertir as crias! Há livros que parecem que são mesmo um verdadeiro convite à brincadeira, como é o Tchim!, das Edições SM. O Livro Clap, da Companhia das Letrinhas, e o Shhh! Nós Temos Um Plano, da Rovelle, também são incríveis para ler e brincar muito!

  1. A HORA DE DORMIR

Assim como há livros para brincar, há livros para desligar da tomada – aliás, não há nada que permita mais isso do que um bom livro, ufa! Nessas horas curto apostar numa leitura mais musical, com mais poesia…às vezes até mesmo um poema! O “Tarde de Inverno”, Edições SM, é lindo de morrer, e parece que convida a gente ao aconchego, convida para um abraço. O “Quero Colo” (também Edições SM) também é assim, livrinho delicioso de se curtir junto das crias. E não, não é sempre que a gente tá disposto a ler na hora de dormir, nem mesmo as crianças. E tá tudo bem! Mas é sempre bom procurar criar o hábito, fazer disso rotina desde muito cedo. Aí quando falta leitura, parece que falta mesmo alguma coisa, é impressionante! 

  1. QUANTO ANTES, MELHOR

Nunca é tarde pra começar, mas quanto antes, sempre melhor! Ler para o recém-nascido, ler até mesmo pra barriga é uma ótima coisa a se fazer –  e as possibilidades são infinitas! Uma dica muito legal é investir logo numa edição bacana de contos de fadas clássicos. Não só porque são histórias fabulosas, mas porque é muito legal a gente conhecer cada uma dessas histórias para um dia poder recontar para nossos filhos – como faziam nossos pais, nossos avós.

Gosto muito da edição Contos de Fadas da Zahar – ela reúne contos de diversos escritores, como Perrault, Irmãos Grimm, Andersen, e diversas histórias: Chapeuzinho Vermelho, Bela Adormecida, A Pequena Sereia em suas versões mais antigas, além de curiosidades sobre cada uma delas. Esse é um livro que vai de fato crescer junto com a criança – vai ser lido, relido, ocasionalmente pesquisado. Quer presente melhor que esse?

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O Matador – Wander Piroli e Odilon Moraes

Privilégio sem tamanho é poder ouvir nas aulas de Odilon Moraes, na pós-graduação que recentemente comecei em São Paulo (e pela qual eu esperava ansiosa!), ele dividir um pouco sobre seus processos criativos. Cada livro tem sua história, cada qual uma trajetória completamente diferente. “O Matador” é um de seus livros mais surpreendentes – traz um pequeno conto escrito por Wander Piroli, que como brinca o Odilon, “é um autor que não poupa ninguém”. É um garoto quem narra a breve história, seu desejo louco de um dia acertar – e matar – um pardal, como fazem os meninos da rua. O final é uma surpresa dolorida, carregada de poesia – presente no texto, na ilustração.

Foi através dele, do final, que Odilon começou a ilustrar o livro: ficou muito tempo com a história engavetada, não sabia como retratar de forma sutil, delicada, o final impactante criado por Piroli. Mas um dia, observando a sombra de sua mão conforme ilustrava, teve a ideia. A sombra do menino, o sangue na parede, o formato de um coração – pura poesia!

É difícil pensar a história, pensar o desfecho sem toda a beleza que o desenho de Odilon traz para ela – quantos significados, quanta coisa se pode ler ali! Essa minha edição é antiga, da Cosac-Naify. Há uma bem recente, lançada pela editora Sesi-SP, junto a outras duas obras de Wander Piroli também ilustradas por ele: “Os Dois Irmãos” e “Nem Filho Educa Pai” – todas assim, lindíssimas, brutas, surpreendentes! ❤️

Livros infantis ruins: como saber?

Tá certo, gosto é gosto e cada um tem o seu. Mas nesses meus muitos anos de leitora, oito anos de mãe e cinco de muita literatura infantil posso dizer que aprendi algumas coisas: uma delas é de existe sim livro ruim e livro bom.

E tá tudo bem gostar de livro ruim? Lógico que tá! Só não vale oferecer só isso às crianças. É importante prezar pela qualidade e principalmente pela diversidade dos livros que escolhemos para nossos pequenos, para que eles cresçam críticos e aí sim, decidam por si só. 

Confira algumas dicas de como evitar encher a biblioteca de livros de qualidade duvidosa: coisa super fácil de acontecer se você depender das feiras literárias e vitrines das grandes livrarias por aí. 🙁

  1. PERSONAGENS DA MODA

Todo mundo tem um licenciado em casa! Por aqui já circulou livro do Hot Wheels, livro da Peppa…e não tem problema nenhum. Mas é importante ir além deles. Esses livros não são literatura, geralmente trazem o conteúdo do desenho replicado, simplificado e as histórias são extremamente bobas. Ou seja, pra quê? Melhor aproveitar o livro justamente pra conhecer outros universos, ufa!

  1. BARULHOS, TEXTURAS E FON-FONS

A vida muda quando a gente descobre que livro pra bebê não tem que ser livro indestrutível não. Pode sim ter um ou dois em casa, mas lembre-se que são mais brinquedos, geralmente, do que qualquer outra coisa. Aposte em livros de verdade já com os bebês! Livros com barulhos, sons, brindes, só trazem poluição sonora e visual e não, também não são literatura. A mesma coisa para livros de texturas: acredite, a criança vai conhecer texturas na vida, indo no parque, na praça, passeando na feira! Através de experiências e estímulos muito mais ricos do que através desses livros. É sério!

  1. LIVRO PRA ISSO, LIVRO PRAQUILO

Essa é outra coisa importante de se livrar de vez, acreditar que o livro infantil TEM que ensinar alguma coisa, tem que servir para algo. Livro pro amiguinho que tá mordendo, livro pra ensinar a reciclar, livro pro desfralde – os livros podem ser de muita ajuda, mas quando são livros bons, divertidos, e principalmente, quando a leitura já faz parte do contexto familiar. Chegar sempre oferecendo livro pra ensinar isso, ensinar aquilo, além de não funcionar como mágica (como muita gente acredita), é muito chato! Ninguém aprende a gostar de ler levando lição de moral o tempo todo, socorro!

  1. ADAPTAÇÕES FRACAS

Os clássicos têm uma importância enorme na formação do leitor literário – são clássicos por uma razão e são uma das maiores riquezas da humanidade! É lindo poder curtir essas histórias junto de nossos filhos, são inesquecíveis. Mas sempre questione as adaptações. Verifique autoria, adaptação, a qualidade da ilustração…há adaptações realmente boas de clássicos, inclusive escritas por grandes nomes da nossa literatura. Sempre que possível, conheça e apresente também a versão original, tal qual foi escrita – e aí sim, contextualize, questione, critique. A literatura tá aí pra isso também!

  1. EDITORA CONHECIDA NÃO SIGNIFICA QUALIDADE

Termino com essa dica porque é algo que eu tenho ouvido muito, principalmente de professores: “ah, adoro os livros da editora tal”. Pois é, tem editoras que são referência mesmo, mas salvo raríssimas exceções, todas editoras têm livros ruins em seus catálogos. As grandes então, nem se fala – e pior, costumam vender esses livros a preços sedutores, baratinhos…fuja desses! Troque 4 livros de 5 reais por um bem escolhido de 20 que eu te garanto: ele não só vai ser muito melhor como ainda vai acompanhar a criança pelo resto da vida! E acima de tudo: diversidade, minha gente! Diversidade de editoras, autores, ilustradoras, formatos, gêneros…quanto maior ela, melhores nossas possibilidades de escolha!

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