Para Conversar Sobre A Morte -II

Não foram poucas as vezes em que contei para vocês por aqui do quanto a literatura foi importante para o Fran e (para mim!) quando meu pai faleceu – o quanto serviu de apoio e inspiração para um momento bastante difícil das nossas vidas. Desde então pudemos conhecer outros e muitos livros (além daqueles que já indiquei por aqui) que tratam do assunto de forma leve e até esperançosa – e são esses que divido hoje com vocês.

Com direito a vídeo emocionado e cheio de boas memórias!

1.É ASSIM

“É Assim” é um livro que me fascina por sua leveza, simplicidade – e também por tratar da morte de forma direta, sem grandes floreios. Conheci primeiro através da sua versão digital, em 2014, e até compartilhei na época sobre ela aqui no blog. Narrada em espanhol e em inglês, repleta de efeitos sonoros e super interativa, é uma experiência interessantíssima. Só depois fui descobrir que também existia sua versão impressa, e o melhor: em português, editado no Brasil pela SM.

Nesse livro Paloma Valdivia lembra que alguns partem, outros chegam, e ninguém sabe ao certo para onde se vai ou da onde é que se vem. Mas tanto a chegada quando a partida são inevitáveis, e para nós, que aqui (e agora) estamos, o melhor é aproveitar! Um livro que trata sobre a morte, fato – mas celebra a vida, lindíssimo! Em março tive a chance de participar de uma oficina com a autora e ilustradora no Seminário Arte, Palavra e Leitura na Primeira Infância e fiquei encantada: Paloma é doce e acolhedora como toda sua obra!

2.PARA ONDE VAMOS QUANDO DESAPARECEMOS

Olha a Isabel Minhós Martins por aqui de novo – e bem, se ela costuma falar sobre tanta coisa delicada, como não ia falar sobre a morte? Em “Para Onde Vamos Quando Desaparecemos?” a autora brinca com tudo aquilo que desaparece o tempo todo ao nosso redor: as meias, as poças d’água, o sol…e lembra que ninguém está aqui para sempre, nem as rochas, nem a areia, nem nós mesmos.

Tudo tem um ciclo, tudo desaparece para (talvez) reaparecer. Nessa busca por respostas de para onde vamos, surgem divertidas e bem-humoradas possibilidades – e infinitas novas perguntas! Mais um livro que trata com leveza e criatividade um assunto dolorido e improvável como a morte. Em Portugal o livro é da Planeta Tangerina – aqui saiu pela Tordesilhinhas.

3. A ÁRVORE DAS LEMBRANÇAS

Um dia, a raposa parte. Teve uma vida longa, feliz, mas sabia que era hora de partir. Seus amigos logo a encontram, e tristes, começam a relembrar de momentos que passaram juntos. A coruja, o urso, o rato dividem suas histórias – e conforme surgem as memórias, uma pequena árvore começa a crescer ali, onde antes estava o corpo da raposa. A cada lembrança ela cresce mais bonita, mais forte – e vira abrigo para os animais da floresta! “A Árvore das Lembranças”, da Editora Rovelle, é um convite para relembrar quem já se foi – e manter sempre vivas as nossas memórias. Um livro especial!

4. O URSO E O GATO MONTÊS

“Certa manhã, o urso chorava. O passarinho, seu grande amigo, havia morrido.” É assim que começa esse livro: com uma amizade improvável e um triste luto. Sofrendo com sua ausência, o urso decide fazer uma caixinha para repousar nela o amigo, em meio a pétalas de flores. Aonde quer que fosse, levava a caixinha junto. Quando descobriam o que ela trazia, os outros animais ficavam constrangidos – diziam para o urso superar aquilo, enterrar logo o passarinho! Mas ele não conseguia.

Então um dia o urso se retira, para vivenciar seu profundo luto – e quando volta a ver o sol, encontra um gato. Um gato que também carrega uma caixa. Surge aí uma nova e também improvável amizade – entre muitas lembranças, música e esperança. “O Urso e o Gato Montês” foi escrito pela musicista Kazumi Yumoto – e é pura poesia! Publicado pelo selo Outono, da Brinque-Book, está aparentemente esgotado. Portanto, se achar um dando sopa por aí, apenas AGARRE-O. Sério!

5.ROUPA DE BRINCAR

Mais um livro que trata do luto com muita poesia – e também cor! – é o “Roupa de Brincar”, do queridíssimo Eliandro Rocha. Uma garota que adora brincar com as roupas sempre tão coloridas da sua tia Lúcia um dia toma um susto. Ao visitá-la, encontra Lúcia vestida de negro, triste demais. A mãe havia mesmo dito que aquele não era um bom dia, mas ela tanto insistiu…quando corre para o guarda-roupa da tia, outra surpresa. Quase vazio, ele guardava apenas uma ou outra peça escura. Então ela tem uma ideia – uma ideia amorosa e criativa! Com ilustrações lindíssimas, é um livro para se parar, se demorar em todas as páginas – e se surpreender! Da Pulo do Gato. 🖤

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Para Sair Da Zona de Conforto

Quando a gente pensa em literatura infantil, a gente muitas vezes logo pensa em histórias bonitinhas, finais felizes – não pensa? Por sorte, não é bem assim: a literatura infantil também reserva livros transgressores, que fazem a gente refletir e pensar em coisas que às vezes passariam despercebidas. Bora conhecer alguns livros para sair da zona de conforto? Clica no vídeo!

1.A GRANDE INVASÃO, de Isabel Minhós Martins e Bernardo Carvalho

Sei não, mas acho que foi Isabel Minhós Martins meu primeiro grande amor da literatura infantil, se eu paro para lembrar. Foi a primeira escritora para os pequenos que li e imediatamente pensei “MAS COMO ASSIM NÃO SE FALA SÓ NISSO NESSA VIDA?” – afinal, na época era só nela que eu queria falar, queria dividir com quem fosse! Amo seu texto, sempre tão rico (português de Portugal, né mores?) e ao mesmo tempo tão descontraído, a forma como aborda assuntos delicados, divertidos, curiosos. Os carros, por exemplo!

Em “A Grande Invasão”, Isabel começa nos lembrando das grandes invasões da história – e então alerta: há invasões que às vezes nem nos damos conta! Esses seres de quatro rodas, por exemplo, tão confortáveis e inofensivos…pera, inofensivos? O tom do livro é todo engraçado, cheio de ironia e reflexão – não há como escapar. E as ilustrações com jeito de quadrinho do Bernardo Carvalho são divertidíssimas! Lá em Portugal o livro é da Planeta Tangerina; aqui no Brasil saiu pela Panda Books.

2. OS INVISÍVEIS, de Tino Freitas e Renato Moriconi

Se a Isabel Minhós Martins foi meu primeiro amor da literatura infantil, arrisco dizer que o Tino Freitas foi o primeiro do Francisco. A ponto do garoto se sentir profundo conhecedor de sua obra e reconhecer – ou não – características de seus livros: “Os Invisíveis” por exemplo, o Fran diz que é o livro mais triste do autor. E tenho que concordar com ele: quem se acostuma às rimas divertidas e à interatividade tão convidativa da obra de Tino Freitas talvez estranhe, numa primeira impressão, o texto enxuto e tão sensível dessa obra aqui. Mais um motivo para achá-la tão surpreendente, imprevisível.

Nessa parceria com o artista Renato Moriconi, a gente acompanha um menino que tinha um super poder: ele via pessoas que aparentemente seus familiares não conseguiam ver. É no sensacional projeto gráfico do livro, nas ilustrações aparentemente muito simples que notamos quem são os invisíveis. E é absolutamente impossível não se emocionar e refletir profundamente com o desenrolar dessa pequena história. Um livro para ser lido e relido, apreciado e debatido entre crianças e adultos – verdadeira preciosidade!

3.SEIS HOMENS, de David McKee

David McKee e seus livros incríveis: em “Seis Homens”, a gente acompanha seis homens que buscam um lugar para viver e trabalhar. Encontram, logo começam a prosperar – e começam a surgir preocupações quanto à segurança de seus bens. Eles buscam proteção, contratam seguranças, mas conforme a riqueza aumenta, aumentam também os problemas – e dali para uma grande guerra é um pulo.

O livro termina de forma genial, num ciclo que não se finaliza – e diante do qual é impossível não sentir vergonha do quão ridículo pode ser o ser humano. Sobre intolerância e conflitos, a publicação é do selo Galera Júnior, do Grupo Editorial Record. Uma curiosidade: em Portugal, o título do livro (“Six Men”, no original) ficou como “História Verdadeira e Triste de Seis Homens que Procuravam a Paz” – quase um resumo da obra!

4.O MENINO PERFEITO, de Bernat Cormand

Daniel é um menino obediente, estudioso e prestativo. Aos olhos de todos à sua volta, é o menino perfeito. Ajuda a pôr a mesa, toca com dedicação nas aulas de piano, lê seu livro favorito todas as noites antes de dormir. Enquanto acompanhamos sua vida tão regrada, folheando as paginas em tom pastel, a ansiedade vai crescendo.

Alguma coisa acontece com Daniel, ele esconde algo, só pode. É tudo muito limpo, muito asséptico, simétrico. É aí que Daniel ganha nossa confiança, a confiança do leitor, e divide seu segredo. Admito que por aqui foi um susto, e foi lindo! Um livro precioso, que incomoda muita gente – mas encanta e surpreende! Da Livros da Matriz.

5. MUNDO CRUEL, de Ellen Duthie e Daniela Martagón

5. MUNDO CRUEL, de Ellen Duthie e Daniela Martagón

Meio livro, meio jogo, “Mundo Cruel” é uma experiência diferente. Reúne cartões com ilustrações um tanto intrigantes, como uma família dividindo uma sopa de gato, um a criança matando formigas, outra se machucando – e atrás, diversas e instigantes perguntas a respeito da cena. Provocador e criativo, é um exercício de filosofia – incomoda, faz pensar. E é muito divertido! Do selo Boitatá, da Boitempo Editorial.

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