Snowhite, de Ana Juán

Nesse reconto de Branca de Neve, escrito e ilustrado por Ana Juán, tudo é inesperado. Os personagens têm personalidades bastante diferentes daqueles que conhecemos através dos Grimm – inclusive a própria protagonista. Aqui ninguém é bom: no mundo hostil criado por Ana Juán, os anões são grandes exploradores, o príncipe não passa de um abusador. A história toma um rumo cruel, perturbador, que se observa (e se sente!) mas belíssimas ilustrações em preto e branco da artista. Um livro que angustia – e fascina – do início ao fim!

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Abecedario ou Abecedário? Os dois, oras!

a versão argentina é a de cima, a brasileira, de baixo

Abecedario, Abecedário

Esse ano começou animado por aqui, cheio de projetos e metas – uma delas, aprender definitivamente espanhol! Às vezes acho que a gente (eu, no caso) fica na comodidade da semelhança das línguas e confia demais no portunhol – e acaba deixando passar muita coisa! Na literatura então, nem se fala – quanta coisa incrível já foi (e é escrita) nessa língua que não chega até a gente? Quero mais é poder ler, escrever, falar sem medo de ser feliz – e já estamos trabalhando para isso, rá!

Legal é que meu professor topou incluir livros infantis nas aulas (alguns que eu trouxe de viagens, outros que ganhei) – e esse aqui, Abecedario, livro argentino de 2014, tinha que ser o primeiro. Ontem foi dia de explorar ele todo, como criança (e tem jeito melhor de aprender?). Ilustrado por Diego Bianki e publicado pela Pequeño Editor, o livro traz um abecedário muito diferente: é um abecedário de verbos. Cada letra traz um verbo, e cada verbo, diferentes ações, com frases e ilustrações pequeninas e repletas de humor – e que por si só rendem ótimas histórias!

Em 2016 o Abecedario foi publicado por aqui, em português, pela Companhia das Letrinhas – mas sabe o que eu acho especialmente interessante? É que parece o mesmo livro, com o mesmo título, a mesma capa…mas a verdade é que são livros completamente diferentes!

Natural que mude a língua e mudem os verbos também, claro – mas aqui mudam os verbos e também as ilustrações. Vai além da tradução: as autoras (Ruth Kaufman e Raquel Franco) pensaram um livro para a Argentina e outro completamente diferente para o Brasil (e a curiosidade de saber como serão na Itália e na França, onde também já foi publicado?). Com diferentes desenhos, expressões, e claro, historinhas para criar (com tanta ação em cada desenho, é impossível não inventá-las!). Dá só uma olhada:

a letra “M”: “mimar” em português (nhó!), “mirar” (olhar) em espanhol

a letra “H”: “hablar” (falar) em espanhol, “hobby” em português (ter um hobby, no caso)

E bem, se a gente deixa de na versão em português ter ilustrações lindas como a pilha de maçãs da letra “D” de “dar” (abaixo), a gente ganha desenhos divertidos como na letra “O”, que em português traz “olhar”: um grupo de turistas olhando e fotografando uma Monalisa falsa, enquanto na página ao lado ladrões levam embora a verdadeira (é minha parte preferida do livro, admito)!

a letra D traz “dar” em espanhol, “dançar” em português

a letra “O”: “oler” em espanhol, “olhar” em português

Um barato explorar cada um dos livros e suas diferenças, comparar palavras, verbos e conhecer expressões de cada língua. O jeito é mesmo ter os dois! 🙂

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A Parte Que Falta, de Shel Silverstein + sua continuação…

Cês provavelmente já viram a (maravilhosa) Jout Jout lendo o livro “A Parte Que Falta”, né não? Pois se não viram, corram – o vídeo é divertido, emocionante, delicioso! Nele Jout Jout descobre um grande clássico da literatura infantil, livro escrito em 1976 por Shel Silverstein (o mesmo autor de “A Árvore Generosa”). Ela lê o livro, observa as ilustrações, repara nos detalhes e se emociona profundamente. É lindo de ver o quanto um ~simples~ livro infantil a toca e provoca reflexões. Porque no fundo é isso: um livro infantil, um bom livro infantil, nada mais é do que um livro que pode (e deve!) ser lido também por crianças. É um livro que toca e comove qualquer ser sensível e disposto a nele mergulhar, independente da idade.

Tem coisa mais bonita que isso?

“A Parte Que Falta” é um livro absolutamente simples: texto enxuto, ilustrações em preto e branco. Mas traz uma história tão profunda, tão inspiradora, que não há quem não se comova ao lê-lo. Nele, acompanhamos um ser circular que aparenta estar incompleto. Ele segue em busca de sua parte faltante, e no caminho até encontra algumas – mas uma é grande demais, outra muito pequena, outra demasiadamente pontuda. Até a hora que uma encaixa perfeitamente…e ufa, é a parte que faltava, certo?

Problema é esse. A parte encaixa tão bem que ele começa a rolar rápido demais, sem parar – e mal consegue observar e apreciar o que acontece ao seu redor, como fazia antes. Então resolve que o melhor é devolvê-la delicadamente ao chão e…seguir procurando, cantarolando, muito do feliz! Porque como reflete a Jout Jout, sempre vai faltar alguma coisa, não adianta. É da natureza humana (ou circular, no caso), simples assim!

 

Engraçado é que em 1976, quando o livro foi lançado, muitos pais torceram o nariz – não entendiam como um autor de livros infantis podia fazer algo assim, tão diferente, um hino à liberdade! Mas Silverstein era assim: acreditava em tudo menos em livros com lição de moral, para nossa felicidade (e das crianças também, aleluia).

Mas a verdade é que o livro fez tamanho sucesso que em 1981 o autor escreveu uma espécie de continuação para ele. “A Parte que Falta Encontra o Grande O” conta a história daquela parte que é devolvida delicadamente ao chão, lembram? Pois ela também segue procurando sua parte (e quem não?), alguém que a leve a um lugar. A busca acaba sendo muito parecida, repleta de metáforas bastante divertidas sobre relacionamentos (não necessariamente amorosos, vale dizer) e suas frustrações.

Um dia ela encontra um círculo, um círculo completo, que sugere que ela tente se mover sozinha. Ela diz que não consegue, afinal tem pontas afiadas, não consegue rolar. O círculo então sugere: “pontas se desgastam, formas mudam”. E é esse o empurrão que a pequena fatia precisava para seguir sozinha – e se surpreender no final!

Os dois livros eram anteriormente publicados no Brasil pela Cosac-Naify (são esses que temos por aqui), mas a boa notícia é que o primeiro, aquele que a Jout Jout lê, foi recentemente relançado pela Companhia das Letras. E o segundo logo logo vai sair – já inclusive está em pré-venda pela Amazon. Clássicos imperdíveis, minha gente! <3

Se você ainda não viu o vídeo da Jout Jout, aqui ó:

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