Saudade – um conto para sete dias

Há alguns livros infantis que, admito, compro mais pra mim do que para o Francisco. É que desde que entrei nesse mundo (o da literatura infantil) venho descobrindo cada coisa bacana, que não adianta: me apaixono, não resisto e compro. Alguns livros são pra crianças mais velhas, outros que eu sei que só vão funcionar em outra época da vida do Francisco – ou seja, ainda serão dele, já estão na sua pequena biblioteca, mas por enquanto são meus e pronto.

Esse aqui é um deles: chama-se ‘Saudade – um conto para sete dias’, e é um dos que eu mais gosto. Volta e meia estou namorando o livro ou monstrando-o para alguém (faço muito disso). Vi em algum lugar que a Companhia das Letras estava lançando essa semana a edição brasileira e lembrei de falar dele pra vocês. A minha cópia é portuguesa, da Editora Bags of Books, de 2011 – comprei na Navegadores há alguns meses.

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O livro é originalmente em espanhol, e chama-se Saudade: Un Cuento para Siete Dias. Na história, um rei muito sábio, habitante de um país muito distante, lança um desafio todas as segundas-feiras: pode qualquer um perguntar qualquer coisa a ele – ele garante que saberá a resposta. Isso até uma segunda-feira em que um tal Fernando (‘com o seu fatinho, a sua gravatinha, os seus bigodinhos e os seus óculos pequeninos’ – o próprio Pessoa) chega com uma pergunta para a qual, surpreendentemente, o rei não encontra resposta imediata: Fernando queria saber o que é ‘saudade’.

O rei, desesperado, pede seis dias a Fernando. Precisa pesquisar o que é saudade. Procura a palavra em dicionários, consulta assessores, passa o dia fora – até que pega um resfriado e volta confundindo saudade com febre. Certo da resposta, corre por todo o reino atrás de Fernando:

“A saudade é a febre! determinou o rei com segurança.

Não, disse Fernando em bom português. Às vezes quando se tem saudade, podemos ter febre, mas a saudade não é a febre.”

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A verdade é que Fernando sabe bem a resposta, mas quer que o rei descubra por si só. Então o rei pede ajuda à sua esposa – que mais uma vez vai atrás do poeta em busca da resposta, é a única saída:

“A Rainha saiu do Palácio à procura do tal homenzinho. Se ele sabia a resposta para a pergunta que ele mesmo fizera, tinha de ajudá-la.

Foi encontrá-lo num café, escrevendo enquanto falava sozinho: ‘todas as cartas de amor são ridículas’. A Rainha observava-o de longe e surpreendeu-se quando Fernando se levantou e respondeu a si mesmo, sentado noutra cadeira: ‘tenho em mim todos os sonhos do mundo!’.

 

Ah, sem spoilers dessa vez. Não vou contar o final exatamente – mas saibam que Fernando dá o caminho para que o Rei descubra o que é a saudade, e o nobre finalmente conhece a resposta.

O mais legal é que a história toda é contada em sete partes, cada uma para um dia da semana. Dá pra ler assim, separadinho – ou de uma vez só mesmo (que eu duvide que alguém aguente esperar). O próprio autor, Claudio Hochman, conta no verso do livro que quando seu filho foi acampar pela primeira vez, ele escreveu esse conto e colocou dentro da mochila do garoto. Mas colocou cada capítulo em um envelope, para que seu filho lesse um a cada dia da semana. A brincadeira deu nesse livro lindo. Lindo mesmo, não só na história como em todo o resto: as ilustrações de João Vaz de Carvalho também são demais (vale ver o site dele, aliás).

Tá aí – é um livro bacana demais para crianças (a indicação etária da editora é de 6 a 9 anos) e também para adultos, oras. Já pensei em dar de presente pra algumas pessoas, e agora que tem a edição brasileira ficou mais fácil. Ah, o lançamento sai por 33 reais no site da editora (e 23 reais no site da Fnac – não adianta, sempre vale pesquisar). Imperdível.

A Árvore Generosa, ou The Giving Tree

Acho muito legal receber sugestões de livros infantis – aliás, essa é uma das razões do blog: trocar dicas de literatura infantil. Tem dado certo –  volta e meia e recebo emails com dicas bacanas, corro atrás do livro e fico feliz da vida. Esse aqui foi um deles, dica do Thales Correa:

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The Giving Tree, em português A Árvore Generosa, é um clássico da literatura infantil americana. Escrito por Shel Silverstein, foi lançado nos Estados Unidos pela primeira vez em 1946. O livro é triste – triste de verdade. Tão triste que, na época, Silverstein não conseguiu que fosse publicado imediatamente – o livro foi primeiro recusado pela Harpers & Row. Segundo os editores, era ‘triste demais para as crianças e simples demais para adultos’. Só foi impresso de fato alguns anos depois – mas também, desde então, já foi traduzido para diversas línguas e vendeu milhões de cópias no mundo inteiro.

O livro conta a história de uma árvore que amava um garoto – e de um garoto que amava uma árvore. Todos os dias eles brincavam, ele a escalava, se pendurava em seus galhos. O tempo passa e a relação deles permanece – até que o garoto chega à adolescência, se apaixona por uma garota, e a árvore fica abandona por um bom tempo. Um dia ele volta, precisa de dinheiro – a árvore generosa então sugere que ele venda suas maçãs. Ele faz como ela manda – depois usa seus galhos para construir uma casa, depois seu tronco para navegar – e a árvore, ou melhor, o toco da árvore continua ali, sentindo saudade do garoto. Termina (ó o spoiler) com o garoto já velho, vindo sentar no toco que resta. E a árvore, coitadinha, se sente feliz novamente. É como uma fábula.

Falei, é triste – mas é pra refletir. Há dezenas de interpretações para a relação árvore-garoto: amizade, relação mãe e filho, humano e natureza. E olha, também há diversas pessoas que detestam o livro – que o garoto é egoísta, que a mensagem é ruim. Besteira, justamente por isso é tão incrível – dá para cada um ‘conversar’ com o livro como lhe convém. Gosto bastante também das ilustrações – são do próprio autor, muito simples, em preto-e-branco. Até nem interessa muito a criançada no início – Francisco chegou pela primeira vez e ficou todo curioso pela capa, bem verde. Mas foi só abrir e perguntar: ‘mas é pra pintar, mãe?’. Faz parte.

Aqui no Brasil, a edição é da Cosac Naify, traduzida pelo escritor Fernando Sabino. Daqueles livros que vale muito a pena ter na biblioteca de casa!

Como ser babá do vovô

Esse mês está rolando uma atividade na escola do Francisco sobre os avós. As crianças levaram fotos, histórias e brincadeiras do tempos deles – e também levaram os próprios. Coisa mais bonitinha: o combinado é que o vovô ou a vovó mostre um talento. Vale desenhar, tocar, ler uma história ou fazer uma salada de frutas pra criançada – o importante era estar lá.

O vovô do Francisco, meu pai, foi na semana passada e modéstia à parte, diz que foi um show. Ele primeiro tocou violão: sapo cururu e marcha soldado, e a criançada cantou e dançou junto. Depois fez alguns desenhos – aliás, estão lá pendurados na parede da sala de aula um elefante, uma cobra, uma ovelha, tudo desenho do (muito talentoso) vovô Napoleão. Nem preciso contar o orgulho do Francisco nessa brincadeira toda. 

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Outra atividade que fizeram na escola foi ler um livro sobre os avós – essa foi a introdução do projeto, na verdade. A Amanda, professora da turma, me pediu indicação de algum livro que tratasse do assunto. Na mesma hora me lembrei desse aqui, Como ser babá do vovô – tinha comprado por indicação do site Kids Indoors. Foi escolhido logo de cara, tão bonitinho que é, e emprestamos o livro pra ser trabalhado na escola. A criançada curtiu.

A ideia do livro é bem bacana: o vovô vai cuidar do netinho enquanto os pais saem para trabalhar – só que a história é contada pelo garoto, que jura que na verdade é ele quem está cuidando do vovô. Então ele fica de babá e ainda passa as dicas: lanches que o vovô gosta, brincadeiras, ideias de desenhos. Tudo na voz da criança:

“Depois do lanche, é hora de levar o vovô pra passear.

Se estiver frio, agasalhe bem o vovô.

Se estiver fazendo calor, não se esqueça de passar protetor solar nele, principalmente na careca.

Lembre-se de dar a mão para ele quando for atravessar a rua, ensine a ele a sempre olhar para os dois lados.”

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Um livro fofo, fofo mesmo! Ele é da americana Jean Reagan, e nos Estados Unidos fez bastante sucesso – tanto que em março de 2014 a autora lança o How to babysit a grandma, a versão de como cuidar da vovó. No Brasil a edição é da Cia. das Letrinhas – e se liga na dica: está em promoção na fnac, de 29 por 20 reais.

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Livro: Como ser babá do vovô

Texto: Jean Reagan

Ilustração: Lee Wildish

Editora: Companhia das Letrinhas