Os Saltimbancos

Eu e o Francisco estamos viajando. Chegamos na terça-feira, depois de uma longa e um tanto trabalhosa viagem (3 escalas + uma criança de 3 anos = CAOS). Pois bem, na segunda-feira, um pouco antes de sair de casa, falei pro rapazinho escolher dois livros para a viagem. A ideia é comprar alguns livros aqui nos EUA (e falar de todos eles pra vocês, claro), por isso só dois. Mas quem disse? Francisco escolheu quatro, e eu trouxe, porque né, pra quê contrariar quando o assunto é literatura?

Aí pensei: vou falar desses quatro, oras, porque se o rapaz escolheu, é porque estão na sua lista de preferidos, não? Um dos que vieram com a gente já falei aqui: é o Bruxa, bruxa, venha à minha festa. Outro é esse: Os Saltimbancos.

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O livro é a peça teatral transcrita, e a verdade é que é impossível lê-lo sem cantar as músicas, nem que mentalmente. O disco é um clássico que fez parte da minha infância (e da infância de muita gente, diga-se de passagem) e ouvir com o Francisco é sempre uma festa. Minha música preferida, a do jumento – do Francisco, a do cachorro. É engraçado, mas assim como quando eu leio Lúcia-já-vou-indo e outros livros com o pequeno eu imediatamente me transporto à minha infância, quando eu escuto Os Saltimbancos com ele, acontece o mesmo. Pra quem quer ouvir agora-já (a gente tá aqui ouvindo), aqui no youtube tem o disco completo.

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A peça foi escrita e musicada inicialmente pelo argentino Luis Enríquez Bacalov e adaptada para o português por Chico Buarque, em 1977 (e a inspiração inicial de Bacalov foi o conto Os Músicos de Bremen, dos Irmãos Grinn). Essa edição do livro, da editora José Olympio, comemora os 30 anos da peça de Chico (é de 2007), com ilustrações de ninguém menos que Ziraldo. A mesma parceria de Chapeuzinho Amarelo, outro livro que o Francisco e eu amamos e do qual já falei aqui no blog.

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A história todo mundo conhece: são quatro bichos (o jumento, a galinha, o gato e o cachorro) que se encontram em uma estrada, fugindo dos maus-tratos de seus patrões. Vão tentar a vida na cidade, e para isso, começam a cantar, formando um conjunto musical.  Vale a pena ter o livro. De verdade. Pra cantar bam alto junto com o disco, pra cantar mentalmente, pra fazer leitura dramática, tanto faz. É lindinho, bem leve (como eu trouxe ele na mala de mão, isso vem bem ao caso) e bom, é um clássico, daqueles inesquecíveis.

Pela internet, dá pra encontrar o livro na faixa de 20 reais ou até menos – nas Americanas, por exemplo, sai por 17 reais.

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Livro: Os Saltimbancos

Texto: Chico Buarque

Ilustração: Ziraldo

Editora: José Olympio

Where the wild things are

Na terça-feira, dia 10 de junho, Maurice Sendak estaria completando 85 anos se estivesse ainda vivo (ele faleceu no ano passado). Muita gente andou homenageando ele essa semana, até o google – e eu me lembrei de pegar o nosso Where the wild things are da prateleira, reler com o Francisco e falar do livro aqui no blog.

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A versão que a gente tem aqui em casa é essa mesmo, a original, em inglês. O livro é outro clássico infantil americano (foi escrito em 1963!) e já foi traduzido para mais de 20 línguas, inclusive para o português. Aqui no Brasil, chama-se “Onde vivemos monstros”, e em Portugal, “O sítio das coisas selvagens”, que é meio que a tradução literal do título. Admito que gosto mais da portuguesa – ‘coisa selvagem’ é muito mais bacana do que monstro (não é?) e não sei, tenho a impressão que esse nome define melhor as criaturas do livro. Monstro é assustador, coisa selvagem é mais simpático, oras.

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O livro conta a história de Max, um garoto que, vestindo sua fantasia de lobo, apronta algumas em casa. De castigo no quarto, proibido de jantar pela mãe, ele cria uma história em sua cabeça e faz de seu quarto uma floresta:

“that very night in Max’s room a forest grew

and grew –

and grew until his ceiling hung with vines

and the walls became the world all around”

 

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No seu quarto surge até um oceano – e com um barco ele navega, navega por dias, semanas, anos, até chegar onde as coisas selvagens estão. Aí é a parte mais bacana. As coisas selvagens rosnam, mostram os dentes, as garras – mas Max, usando seu truque mágico de encarar as criaturas sem piscar, consegue inverter tudo e dominá-las, sendo nomeado rei das coisas selvagens.

Rufam os tambores, as criaturas e Max dançam até se cansarem e até que Max sente saudade de casa. E ele volta, navegando novamente por dias, meses, anos…

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“the wild things roared their terrible roars and gnashed their terrible teeth

and rolled their terrible eyes and showes their terrible claws

but Max stepped into his private boat and waved good-bye

and sailed back over a year

and in and out of weeks

and through a day

and into the night of his very own room

where he found his supper waiting for him

and it was still hot.”

 

Adoro esse final. Imagine só, todo esse tempo, todas essas aventuras e quando ele finalmente decide voltar para 0 quarto seu jantar esta ali em cima, ainda quentinho. É um livro pra mexer mesmo com a imaginação, delicioso. Tem textos curtos e muita ilustração, dá pra ler para os bem pequeninos. Vale ficar na cabeceira, para ser lido e relido.

O nosso eu comprei nos EUA mesmo – por lá a versão capa dura sai na faixa de 15 dólares. No Brasil, a edição, também em capa dura, ficou por conta da Cosac Naify, e custa R$ 49,90.

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Livro: Where the wild things are

Texto e ilustração: Maurice Sendak

Editora: HarperCollins Publishers

Telefone sem Fio

Telefone sem Fio é o outro livro no estilo daquele do último post, Bocejo. Segue exatamente a mesma linha, é grandão (tem 35cm por 25cm, acabei de medir, estava curiosa), e o destaque do livro são as ilustrações, uma mais incrível que a outra.

São diversos personagens cochichando um no ouvido do outro, como na brincadeira do telefone sem fio. O bobo da corte cochicha para o rei, que cochicha para o cavaleiro de armadura, que cochicha para o escafandrista, e assim vai. Personagens de várias épocas, lugares e histórias se misturam na brincadeira. Até o papagaio entra nela, com um cochicho do pirata (o preferido do Francisco, aliás). A perua, o turista, a chapeuzinho vermelho, todo mundo na base do diz-que-diz-que. Não há texto algum, só as ilustrações. E aí é a parte mais legal: fica pra gente e pra criançada inventar o que cada um tá falando.

O livro é ilustrado por Renato Moriconi e idealizado por Ilan Brenam, assim como o Bocejo. Gosto da historinha que o próprio Ilan conta na última página do livro, quando fala como surgiu sua ideia: em um restaurante, ele propôs o jogo do telefone sem fio, e a criançada curtiu a brincadeira – “fiquei com a cena das crianças falando ao pé do ouvido dos adultos rodando na minha cabeça, as expressões de cada um ao ouvir o cochicho do outro não paravam de invadir meus sonhos”. Foi aí que ele decidiu transformar a brincadeira em livro, chamando seu amigo artista Renato Moriconi para ilustrá-lo lindamente. Deu nesse livro lindão aí, cheio de possibilidades e referências divertidas.

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Livro: Telefone Sem Fio

Ilan Brenman e Renato Moriconi

Editora: Companhia das Letrinhas