A gigantesca pequena coisa

Tá vendo por que eu não posso entrar na Navegadores? Porque eu não consigo sair de lá sem pelo menos um livro embaixo do braço. Se eu for com o Francisco, então, pior ainda. Ontem aproveitei que ele estava na escola (ai, a felicidade da volta às aulas!) e fui dar uma volta por lá, levar alguns marcadores de texto que fiz do blog. Foi só entrar na livraria e dez minutos depois estava eu sentada com uma pilha de livros infantis para conhecer (e babar).

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Saí só com um, mas saí com um escolhido a dedo. Folheei vários quando estava lá, mas esse me chamou a atenção logo de cara. Grande, formato A2, com capa dura, ilustrações lindas e adivinha, português. Não adianta, eu tenho mesmo uma loucura pelos livros infantis portugueses, já falei de diversos aqui no blog. Gosto da forma como são editados, da qualidade impecável, das ilustrações, das histórias – absolutamente tudo.

Esse aqui é uma verdadeira obra de arte, sem brincadeira. Coisa linda. Chama-se ‘A Gigantesca Pequena Coisa’ (é originalmente em francês, La Gigantesque Petite Chose), e tanto o texto quanto as ilustrações são da artista italiana Beatrice Alemagna. O livro fala sobre a existência dessa tal gigantesca pequena coisa de um jeito muito delicado, bem poético. Um mistério até o final. Selecionei três dos meus trechos/desenhos preferidos pra mostrar pra vocês:

“A senhora do crocodilo ficou à porta, a esperar por ela, durante longos meses. Nunca viu chegar nada. Há pessoas que não sabem reconhecê-la.”

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“Um dia, como por brincadeira, ela escondeu-se numa lágrima e encheu um homem de nostalgia.”

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“As pessoas encontram-na nos cheiros, nos olhares. Nos braços dos outros.”

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No final, trata-se da felicidade. A coisa toda de ela estar quase sempre à nossa frente (muitas vezes sem a percebermos), a tal busca constante. Tão bonito! É lógico que é um livro para crianças um pouco maiores (e para adultos, por que não?). Permite mil diálogos e reflexões.

Mas ainda assim, li nessas duas últimas noites com o Francisco – do nosso jeito, mostrando e conversando sobre os detalhes das ilustrações, perguntando o que seria a tal gigantesca pequena coisa. No início, ele não deu muita bola para o livro – quando tirei da sacola nem quis folhear. Mas foi só eu começar a ler a história que ele se aconchegou do meu lado e ouviu atento. Ontem pediu que eu lesse novamente, e hoje de manhã também – surgiu na sala meio desastrado, carregando o livro grandão pro meu colo. Já entrou pra lista dos preferidos!

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Livro: A Gigantesca Pequena Coisa

Texto e ilustração: Beatrice Alemagna

Editora: Bag of Books (Portugal)

 

O Balé da Chuva

Finalmente voltamos de viagem. Saímos de uma Madison ensolarada, que beirava os 35 graus, e chegamos em uma Curitiba chuvosa e muito fria – semana passada até nevou. A boa coisa é que fez frio na nossa última semana de férias – hoje, que o Francisco voltou às aulas (aleluia senhor), fez um dia lindo de morrer.

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Semana passada a gente aproveitou pra colocar os livros em ordem, reler e redescobrir alguns – esse aqui foi um deles. Comprei O Balé da Chuva na livraria Poetria, aqui em Curitiba. Lá é um lugar bacana, livraria pequenininha  e aconchegante, com cafés e delícias e uma bela seleção de livros infantis. Lá também tem muita coisa local (de autores aqui do Paraná), e volta e meia acontece eventos bacanas, como papo literário, contação e outras atividades. Foi numa dessas que comprei nossa cópia do Balé da Chuva.

É o primeiro livro infantil de Marilza Conceição, professora e coordenadora da regional do Paraná da AEILIJ (Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil), e é uma delícia de ler. É em primeira pessoa em primeira pessoa, e começa descrevendo uma paisagem muito conhecida para quem mora aqui por esses lados: uma casa de madeira, parede branca e janelas azuis, um grande pinheiro araucária aos fundos (que o Francisco toda vez que vê na ilustração, aliás, diz: ó mãe, o pinheiro do pinhão!).

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Numa noite muito chuvosa a mãe observa a janela. A filha caçula aparece dizendo que está com medo daquela chuva toda – e ali começa uma conversa sobre ela, a chuva. Mãe e filha observam pela porta – e a mãe narra a chuva como se ela fosse um balé, guiado por uma orquestra de ventos e trovões:

“Abraço-a enquanto olhamos os pingos barulhando na calçada. 

Um clarão piscante de luz aparece no céu por instantes, feito lâmpada fluorescente gigante. Aconchego-a junto a mim:

Agora vem o trovão, o instrumento musical mais vigoroso.”

 

No final, a garotinha perdeu o medo, e mãe e filha dançam nos degraus da entrada da casa, acompanhando o ritmo da chuva. É daqueles livros pra ler aconchegado com o filhote (ou filhota), melhor ainda se ouvindo a chuva lá fora, por que não? As ilustrações são de Alessandra Tozi, também curitibana.

O livro está à venda por aqui na Poetria e na Navegadores – fora do estado, vale encomendar pela editora Insight.

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Livro: O Balé da Chuva

Texto: Marilza Conceição

Ilustração: Alessandra Tozi

Editora: Insight

Morango Sardento e o valentão da escola

Se tem um trauma que carrego nessa vida, é o trauma das aulas de educação física. Eu tinha pavor, pavor. Mas todo esse meu medo existia por um motivo específico, na verdade, uma brincadeira específica: a queimada, ou, como chamavam na minha escola, na época, caçador. Tem quem adore. É aquela brincadeira em que dois times ficam frente a frente, cada um tentando acertar com a bola alguém do outro time. Eu era sempre a última a ser escolhida na hora de montar os times – e SEMPRE a primeira a levar uma bolada. Tinha medo, tenho até hoje, me encolhia toda, não conseguia nem pensar em correr e POW, lá vinha a bola.

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Acho que por isso eu desenvolvi um carinho especial e instantâneo por esse livro, Morango Sardento e o valentão da escola. Ele faz parte de uma pequena coleção que conta as aventuras de Morango Sardento, uma engraçadinha garota ruiva. É na verdade uma autobiografia da autora, a atriz Julianne Mooore. A atriz de Magnólia e Ensaio sobre a cegueira (entre muitos outros filmes) escreveu esses livros contando sobre sua infância – e de um jeito bem divertido consegue falar sobre um assunto delicado: bullying. Nesse volume (que é o segundo – eu e o Francisco ainda não temos o primeiro), Morango Sardento vai ao passatempo, local da escola onde as crianças brincam antes do horário de aula. Lá ela teme só uma brincadeira: a queimada. A razão principal do temor é Pedro Bomba, um garotinho que não hesita em jogar a bola com toda força nas crianças menores – e me contem, qual queimada ou escola não tinha/tem um desses?

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Um dia então Morango Sardento se imagina um grande monstro, pra criar coragem e entrar no jogo sem medo. E é a garotinha que acaba assustando Pedro Bomba. A parte mais bacana é que dali, do ‘estranhamento’ entre os dois, surge uma amizade. Os dois terminam a história brincando juntos e felizes da vida.

O livro é bonitinho demais, tem uma cara toda de quadrinho, com ilustrações de LeUyen Phan. A tradução é de outra atriz: Denise Fraga. No Brasil, saiu pela Cosac-Naify – conheci o livro sem querer, em uma daquelas liquidações relâmpago do site da editora. Estava com 40% de desconto (já faz algum tempo, no entanto), e eu resolvi arriscar. Foi uma boa surpresa, o Francisco adorou o livro. Ainda pretendo comprar o primeiro (que se chama apenas Morango Sardento) e o segundo, que ainda não saiu no Brasil (chama-se Freckleface Strawberry – Best Friends Forever).

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O livro fez um sucesso danado lá fora: se tornou até espetáculo musical da Broadway. Também tem um aplicativo para o celular, o Freckleface Straberry Monster Maker Game – é em inglês e gratuito, dá pra baixar aqui.

Bem, eu continuo com meu medo de queimada (com 31 anos na cara, sim senhor), mas o Francisco que já vá aprendendo com a Morango Sardento a se proteger e arrasar no jogo. Tenho fé.

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Livro: Morango Sardento e o valentão da escola

Texto: Julianne Moore

Ilustração: LeUyen Phan

Editora: Cosac-Naify