A ball for Daisy

Tudo bem que o nome da cachorrinha do livro que eu indico hoje é o nome da mãe do Francisco, a pessoa que aqui vos fala, tudo bem. Daisy é mesmo nome de pato da Disney (alô Margarida!), perfume ou cachorro. Mas deixa eu contar: esse livrinho é uma delícia, e faz tempo que anda circulando aqui em casa. Comprei , admito, pelo nome – ué, fiquei curiosa. E acertei – é mesmo muito bonitinho.

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O nosso é esse aqui, em inglês, edição americana. Quer dizer, em inglês só o título, porque na verdade o o livro não tem texto algum: são apenas imagens, desenhos à base de aquarela do autor, o ilustrador Chris Raschka. As ilustrações são todas grandes, bonitonas: tudo com muito azul, amarelo e vermelho – aliás, vermelha é a tal bola da Daisy.

A historinha é bem simples: a cachorrinha curte sua bolinha, corre com ela por aí, até que um dia, brincando com um cachorro que conhece no parque, sua bola de estimação estoura. Ela fica triste da vida, lógico. Mas final feliz: a tutora do outro cãozinho dá uma nova de presente para a Daisy – dessa vez, uma bola azul.

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Toda criança já perdeu – ou quebrou, ou teve quebrado – algum brinquedo que gosta muito. O Francisco já – esses dias quebrei a perna de um lanterna verde dele (aham, eu mesma, fechei a porta do carro em cima do brinquedo, coitado), um brinquedo que carregava para cima e para baixo. Nem preciso contar o chororô que foi – e pior, o brinquedo tinha sido um brinde de algum lanche, não tinha como repor. Aí RÁ, lembrei da história da bola da Daisy – o consolo não foi instantâneo, mas funcionou.

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Outra coisa: gosto bastante de livros sem palavras – especialmente quando é assim, bonito de verdade. Quando as ilustrações se destacam e prendem mesmo a atenção da criança. É legal porque dá pra ler de diversos jeitos, mudar a história (por que não?), o vocabulário – dá pra ‘ler’ conforme o humor. E é mais fácil estimular que a própria criança conte a história, do jeito que ela vê ali.

A Ball for Daisy é tão bacana que já ganhou diversos prêmios nos EUA – inclusive a medalha Caldecott, no ano passado, um dos prêmios americanos mais prestigiados da literatura infantil. Parte chata: aqui no Brasil, só achei à venda na Livraria Cultura, por um precinho bem amargo: 52 reais. Já via Amazon, um novo sai por 13 dólares.

Saudade – um conto para sete dias

Há alguns livros infantis que, admito, compro mais pra mim do que para o Francisco. É que desde que entrei nesse mundo (o da literatura infantil) venho descobrindo cada coisa bacana, que não adianta: me apaixono, não resisto e compro. Alguns livros são pra crianças mais velhas, outros que eu sei que só vão funcionar em outra época da vida do Francisco – ou seja, ainda serão dele, já estão na sua pequena biblioteca, mas por enquanto são meus e pronto.

Esse aqui é um deles: chama-se ‘Saudade – um conto para sete dias’, e é um dos que eu mais gosto. Volta e meia estou namorando o livro ou monstrando-o para alguém (faço muito disso). Vi em algum lugar que a Companhia das Letras estava lançando essa semana a edição brasileira e lembrei de falar dele pra vocês. A minha cópia é portuguesa, da Editora Bags of Books, de 2011 – comprei na Navegadores há alguns meses.

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O livro é originalmente em espanhol, e chama-se Saudade: Un Cuento para Siete Dias. Na história, um rei muito sábio, habitante de um país muito distante, lança um desafio todas as segundas-feiras: pode qualquer um perguntar qualquer coisa a ele – ele garante que saberá a resposta. Isso até uma segunda-feira em que um tal Fernando (‘com o seu fatinho, a sua gravatinha, os seus bigodinhos e os seus óculos pequeninos’ – o próprio Pessoa) chega com uma pergunta para a qual, surpreendentemente, o rei não encontra resposta imediata: Fernando queria saber o que é ‘saudade’.

O rei, desesperado, pede seis dias a Fernando. Precisa pesquisar o que é saudade. Procura a palavra em dicionários, consulta assessores, passa o dia fora – até que pega um resfriado e volta confundindo saudade com febre. Certo da resposta, corre por todo o reino atrás de Fernando:

“A saudade é a febre! determinou o rei com segurança.

Não, disse Fernando em bom português. Às vezes quando se tem saudade, podemos ter febre, mas a saudade não é a febre.”

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A verdade é que Fernando sabe bem a resposta, mas quer que o rei descubra por si só. Então o rei pede ajuda à sua esposa – que mais uma vez vai atrás do poeta em busca da resposta, é a única saída:

“A Rainha saiu do Palácio à procura do tal homenzinho. Se ele sabia a resposta para a pergunta que ele mesmo fizera, tinha de ajudá-la.

Foi encontrá-lo num café, escrevendo enquanto falava sozinho: ‘todas as cartas de amor são ridículas’. A Rainha observava-o de longe e surpreendeu-se quando Fernando se levantou e respondeu a si mesmo, sentado noutra cadeira: ‘tenho em mim todos os sonhos do mundo!’.

 

Ah, sem spoilers dessa vez. Não vou contar o final exatamente – mas saibam que Fernando dá o caminho para que o Rei descubra o que é a saudade, e o nobre finalmente conhece a resposta.

O mais legal é que a história toda é contada em sete partes, cada uma para um dia da semana. Dá pra ler assim, separadinho – ou de uma vez só mesmo (que eu duvide que alguém aguente esperar). O próprio autor, Claudio Hochman, conta no verso do livro que quando seu filho foi acampar pela primeira vez, ele escreveu esse conto e colocou dentro da mochila do garoto. Mas colocou cada capítulo em um envelope, para que seu filho lesse um a cada dia da semana. A brincadeira deu nesse livro lindo. Lindo mesmo, não só na história como em todo o resto: as ilustrações de João Vaz de Carvalho também são demais (vale ver o site dele, aliás).

Tá aí – é um livro bacana demais para crianças (a indicação etária da editora é de 6 a 9 anos) e também para adultos, oras. Já pensei em dar de presente pra algumas pessoas, e agora que tem a edição brasileira ficou mais fácil. Ah, o lançamento sai por 33 reais no site da editora (e 23 reais no site da Fnac – não adianta, sempre vale pesquisar). Imperdível.

A Árvore Generosa, ou The Giving Tree

Acho muito legal receber sugestões de livros infantis – aliás, essa é uma das razões do blog: trocar dicas de literatura infantil. Tem dado certo –  volta e meia e recebo emails com dicas bacanas, corro atrás do livro e fico feliz da vida. Esse aqui foi um deles, dica do Thales Correa:

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The Giving Tree, em português A Árvore Generosa, é um clássico da literatura infantil americana. Escrito por Shel Silverstein, foi lançado nos Estados Unidos pela primeira vez em 1946. O livro é triste – triste de verdade. Tão triste que, na época, Silverstein não conseguiu que fosse publicado imediatamente – o livro foi primeiro recusado pela Harpers & Row. Segundo os editores, era ‘triste demais para as crianças e simples demais para adultos’. Só foi impresso de fato alguns anos depois – mas também, desde então, já foi traduzido para diversas línguas e vendeu milhões de cópias no mundo inteiro.

O livro conta a história de uma árvore que amava um garoto – e de um garoto que amava uma árvore. Todos os dias eles brincavam, ele a escalava, se pendurava em seus galhos. O tempo passa e a relação deles permanece – até que o garoto chega à adolescência, se apaixona por uma garota, e a árvore fica abandona por um bom tempo. Um dia ele volta, precisa de dinheiro – a árvore generosa então sugere que ele venda suas maçãs. Ele faz como ela manda – depois usa seus galhos para construir uma casa, depois seu tronco para navegar – e a árvore, ou melhor, o toco da árvore continua ali, sentindo saudade do garoto. Termina (ó o spoiler) com o garoto já velho, vindo sentar no toco que resta. E a árvore, coitadinha, se sente feliz novamente. É como uma fábula.

Falei, é triste – mas é pra refletir. Há dezenas de interpretações para a relação árvore-garoto: amizade, relação mãe e filho, humano e natureza. E olha, também há diversas pessoas que detestam o livro – que o garoto é egoísta, que a mensagem é ruim. Besteira, justamente por isso é tão incrível – dá para cada um ‘conversar’ com o livro como lhe convém. Gosto bastante também das ilustrações – são do próprio autor, muito simples, em preto-e-branco. Até nem interessa muito a criançada no início – Francisco chegou pela primeira vez e ficou todo curioso pela capa, bem verde. Mas foi só abrir e perguntar: ‘mas é pra pintar, mãe?’. Faz parte.

Aqui no Brasil, a edição é da Cosac Naify, traduzida pelo escritor Fernando Sabino. Daqueles livros que vale muito a pena ter na biblioteca de casa!