Bocejo

Adoro esses livros infantis grandões, que a gente mal consegue segurar direito. O Francisco também. Aí ele obceca no livro e quer andar com ele por aí, sai tropeçando, arrastando o pobre coitado e querendo levá-lo pra todo lugar. Ontem quis levar esse pra escola. Levou, mostrou para os amigos, e a professora me contou que o livro acabou até virando atividade.

O livro se chama Bocejo. Não tem texto, apenas um “OOOOOHHHH” que acompanha lindas ilustrações em pintura a óleo, de grandes figuras (ou não) bocejando. Tem estátua, astronauta, vicking, Napoleão Bonaparte, Charles Chaplin e outros, todos de bocão aberto. E tudo naquele livro grande, as ilustrações com bastante destaque, coisa linda:

A última página é espelhada, pra você se ver bocejando. E ó, é batata: você folheia o livro e boceja, não tem como. É ver um bocão aberto que a gente logo vai abrindo o nosso, não tem coisa mais contagiante.

As ilustrações são de Renato Moriconi, e a autoria de Ilan Brenman. A dupla tem outro livro bem bacana, no mesmo estilo, que se chama Telefone Sem Fio. Falo dele na próxima!

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Livro: Bocejo

Texto: Ilan Brenman

Ilustração: Renato Moriconi

Editora: Companhia das Letrinhas

 

Cadê o meu penico

Continua aqui em casa a saga do desfralde. E eu continuo tentando de todo jeito mostrar pro Francisco o quanto o penico é legal, bacana, sensacional, muito mais interessante que a fralda. Aí nesses últimos dias é tema recorrente por aqui: cocô, xixi, penico – até os livros que a gente tem lido falam disso. Esses dias falei aqui do O que tem dentro da sua fralda?, o primeiro livro que conhecemos que falava do assunto. Esse aqui, Cadê meu penico?, encontrei na livraria essa semana – não resisti e comprei. Falou de penico, entrou pra nossa biblioteca. Estamos assim, agora.

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A história é bem engraçada: um certo dia a Hortênsia sai apurada para usar seu penico e cadê? Sumiu. Não e encontra de jeito nenhum – enquanto isso, do outro lado da fazenda, olha o que acontece:

“Ali pertinho, dona Malhada estava toda animada. Conversava com os amigos:

‘olhem só o que achei jogado aqui no chão…’

‘o que é isso, uma gamela? acho que é um tigelão!’

‘esse pote, na verdade, serve pra fazer cocô’

‘oba, eu tô com vontade’

‘você tá? eu também tô’

‘então façam, por favor, uma fila pro cocô.'”

 

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E lá vão todos os bichinhos fazer cocô no penico, em fila. Enquanto isso a pobre Hortênsia sai perguntando por ele, apertada. Só que ninguém sabe que aquilo se chama penico, oras.  Mas no final eles de entendem: o que os bichos, empolgadíssimos, chamam de ‘pote cocozeiro’ é na verdade o penico da menina. E finalmente Hortênsia faz seu cocô bem feliz:

“E assim termina a história

da nossa pequena Hortênsia,

que precisava fazer uma tal coisa

com muita, mas muita urgência!

‘Que situação! Ela só queria fazer cocô, então?'”

 

É mais um jeito de tratar o assunto: aqui em casa o penico agora é igual ao da Hortênsia, dos bichinhos todos, veja só Francisco, que coisa mais bacana – ele se diverte, mas ainda não se animou a usá-lo para os devidos fins. Pois bem, vamos tentando.

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É mais um livro bonitinho pra nossa coleção desfralde, divertido, com ilustrações bacanas. Gosto do jeito que o texto quase faz parte da ilustração, tem uma diagramação bem diferente. E sabe, também acho que a rima funciona bem no livro – o original é em inglês, chama-se Have you seen my potty?. Não cheguei a vê-lo, mas me parece que funcionou bem a tradução para o português. As rimas são bonitinhas e engraçadas, e é divertido ler. O Francisco aprovou, eu também.

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Livro: Cadê o meu penico?

Texto: Mij Kelly

Ilustração: Mary McQuillan

Editora: Companhia das Letrinhas

 

A Mãe que Chovia

Conheci a obra do José Luís Peixoto há poucos anos, através de uma amiga. Me apaixonei quase que instantaneamente, seus livros são lindos demais. Português, cheio de emoção, li Cemitério de Pianos e Nenhum Olhar, dois daqueles livros que entraram pros meus preferidos da vida. São livros pesados, daqueles que te fazem mergulhar nos personagens, mesmo sem querer.

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Em abril do ano passado Peixoto lançou seu primeiro livro infantil, “A Mãe que Chovia”. O lançamento foi grande em Portugal, o escritor anda em destaque por lá. Tive sorte, eu estava em Lisboa bem na época, e trouxe uma cópia para mim e para o Francisco. Li pela primeira vez lá mesmo, logo depois de comprá-lo, sentada em um cantinho do Chiado (ui, que chique!). Morri de chorar. PENSA: longe do Francisco e morrendo de saudade, lendo um livro sobre maternidade e ausência. Não tinha outro jeito.

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O livro trata do assunto de um jeito lindo. É a história de um menino que é filho da chuva. Os dois têm uma linda relação, mas todos os anos a mãe tem que partir, chover em outos lugares do mundo:

“A mãe explicava-lhe que, no mundo inteiro, só ela é que sabia chover.

Era por isso que viajava tanto.

No verão, tinha de ir chover em países distantes

Longe, sentia saudades do filho e algumas das gotas que chovia eram lágrimas.

O rapaz também ficava triste. Sentia muita falta da mãe.

Angustiado pela ausência dela, e crescendo, já adolescente, ele começa a se afastar da mãe. Um dia diz que já não acredita nela. A mãe fica triste demais, e nessa noite ela neva. O menino então pede à mãe que fique. Ela fica, mas o verão queixa-se ao vento e pede que ele a mande embora. Ela vai – quando volta, não encontra mais o filho. Ah, eu não vou contar o fim, vai. É spoiler demais da minha parte.

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Mas me sinto obrigada a compartilhar um trechinho do final, na voz do filho:

“Mesmo quando estou onde não podes estar, mesmo quandoe estás onde não posso estar, sabemos bem o tamanho dessa certeza que nos une. Eu tenho a certeza de ti, tu tens a certeza de mim. Amor, essa palavra. Mãe, choves essa palavra dentro de mim. Agradeço o milagre que me deste, me dás e que permanece sempre comigo. (…) Agradeço-te com amor, tenho orgulho de ti com amor, sou feito de ti com amor. És minha mãe inteira e sou seu filho inteiro.”

Arrepiou?

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Enfim, é um livro que trata de um assunto complicado, com uma linguagem bem densa. É cheio de poesia, coisa linda. Também têm ilustrações lindas, de Daniel Silvestre da Silva – mas são mais escuras, com poucas cores, quase tristes. Acompanham a história, que oras, é triste, mas não por isso menos bonita. É um livro pra crianças mais velhas e também para adultos. Mas não pensem que não leio a história para o Francisco não: volta e meia faço isso, mas leio do meu jeito. Conto a história mais do que leio, e ele gosta. Sabe que é o livro da mãe chuva. Mas admito: o livro mora mesmo é na minha cabeceira.

A minha cópia, como contei, comprei em Portugal. Custa na faixa de 15 euros por lá. Ainda não tem edição brasileira, só encomendando da terrinha mesmo.

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O José Luís Peixoto está aqui no Brasil, vejam só. Os lugares por onde vai passar estão no site dele. Estará falando sobre literatura portuguesa, e quem sabe fala d’A Mãe que Chovia. Uma pena que não vai passar por Curitiba!

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Livro: A Mãe Que Chovia

Texto: José Luís Peixoto

Ilustrações: Daniel Silvestre da Silva

Editora: Quetzal (Portugal)