Mas por que não ele?

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Por que não Flávia e O Bolo de Chocolate? Por que quando falo de protagonismo negro na literatura infantil prefiro deixar ele de fora?

Vamos lá. Primeiro, não há como negar: é um livro bonitão, projeto gráfico, ilustrações, todo um cuidado com a guarda, a capa dura, uma publicação caprichada da Rocco. O texto é da jornalista Miriam Leitão, fluido, a história bem contada. Mas vamos a ela, bem resumidamente, para quem não conhece ainda: Rita, uma mulher branca (“muito boa, especial mesmo”), não consegue ter filhos e decide um dia adotar uma criança: Flávia, que é negra.

Uma ocasião, Rita ouve uma vizinha dizer que Flávia não pode ser sua filha, pois são muito diferentes. Rita chama a vizinha de boba (juro), a vida segue e Flávia cresce feliz. Um dia, porém, Flávia começa a chorar, dizendo para a mãe que não gosta de ser marrom. A mãe insiste que não, que ela é linda do jeito que é, “toda marronzinha”. Mas de nada adianta, Flávia só se entristece.

Para reverter a situação, Rita decide então proibir coisas marrons, como bolo de chocolate. Elas até têm uma conversa sobre como as pessoas são diferentes, como o brasileiro é de todo jeito e de toda a cor; mas o conflito se resolve mesmo dessa forma, em torno da cor marrom do sorvete, da areia, do cachorro Cacau e de um bolo de chocolate.

O que eu sinto é um grande desconforto diante da forma rasa com que o livro aborda um assunto tão sério e importante. Não é nem nunca foi apenas uma questão de cor, e tratar uma dor tão profunda como a de se sentir vítima do racismo (que é o que acontece com Flávia) com uma resolução tão simplória é no mínimo ingênuo –– mesmo em se tratando de um livro para crianças, talvez até especialmente.

E sabe o que me deixa ainda mais desconfortável? É saber que esse é, em MUITAS bibliotecas (de crianças brancas principalmente), o único livro com protagonismo negro. Agora pensem cá comigo: é esse o protagonismo que a gente busca quando pensa em protagonismo negro? Aliás, melhor: isso é protagonismo?

Por que oferecer para uma criança uma história que já traz a cor como um problema, que já trata do racismo (ainda que com uma solução um tanto questionável)?  Reflitam, de verdade. E CALMA LÁ: nada de execrar o livro. Isso é só uma leitura crítica, a minha leitura crítica, e convido a vocês a entrarem na discussão comigo. Mais uma vez, meu convite é principalmente esse: vamos procurar ir além? Procurar outros livros, buscar outras histórias, ampliar nosso repertório e principalmente: o repertório de nossos pequenos e pequenas? <3

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