oi! meu nome é daisy e aqui eu compartilho minhas aventuras literárias (e mais), com meus filhos francisco, de 6 anos, e vinícius, ainda bebê. seja bem-vindo! Leia mais



29 jul 2015

5 livros infantis de autores que nós, os grandes, amamos

Escrito por
Livros

Para começar, uma aleluia para a volta às aulas, que ninguém aguenta – nossas férias foram divertidas, teve colônia, passeios, leituras, cinema e até viagem ao Mato Grosso do Sul. Mas nada como voltar para casa, o Francisco para a escola, todos nós para a boa e velha rotina, eu para o blog e os vídeos do youtube. O tema que escolhi falar hoje é um que eu planejava há muito tempo, e aqui vai a primeira parte dele: livros infantis escritos por grandes autores que escrevem pra gente grande. A lista é longa: Adélia Prado, Jorge Amado, James Joyce, José Saramago, Gabriel García Márquez são só alguns que já se aventuraram na literatura infantil, e fizeram obras maravilhosas (não podia ser diferente!). Escolhi hoje cinco dos nossos preferidos – mas logo volto com outros, pode deixar!

1. FONCHITO E A LUA, de Mario Vargas Llosa

Eu tenho um carinho especial por esse livro, especial mesmo – primeiro, porque foi um dos primeiros livros que o Francisco ganhou, quando ainda era pequenino. Li um bocado esse livro pra ele, ainda bebê, naquelas muitas noites insones que passamos juntos (um dia eu conto, mas o Francisco só foi dormir mesmo foi com dois anos de idade, minha gente). É uma linda história de amor para as crianças, escrita por Mario Vargas Llosa, prêmio Nobel de Literatura em 2010. Llosa é conhecido por livros como A Casa Verde, Pantaleão e as Visitadoras (esse é um dos meus preferidos) e outras grandes obras de ficção para gente grande – esse aqui foi seu primeiro livro infantil, até hoje seu único. Na história, Fonchito quer dar um beijinho no rosto de Nereida – mas ela diz que só permite com uma condição: que ele traga a lua para ela. A missão só não é impossível porque Fonchito tem uma grande ideia ao ver a lua refletida na água – em uma linda noite de luar, ele leva um recipiente repleto de água para Nereida, e ali ela tem sua própria lua. História encantadora, publicada no Brasil pela editora Objetiva.

fonchito e a lua - mario vargas llosa

fonchito e a lua - mario vargas llosa

2. DISCURSO DO URSO, de Júlio Cortázar

Aaaah esse livro! Já falei dele aqui um bocado de vezes – é um dos nossos preferidos (eu falo que TANTO livro é dos nossos preferidos, mas acreditem, é porque são mesmo!). Eu já deixei lagriminhas escorrerem dos olhos quando li pela primeira vez (sou sensível, poxa!) e o Francisco já escolheu o livro para levar para a escola algumas vezes. O livro é de Júlio Cortázar, e traz toda a fantasia e sensibilidade do escritor numa história comovente sobre um urso que vive nas tubulações dos prédios. É ele quem as mantém limpas, escorregando e subindo pelos canos de água, de ar-condicionado. O urso, vermelho, gigante, simpático, mantém um carinho especial pelos seres humanos: gosta de observá-los e de pensar no quanto são sós e tristes. As ilustrações do italiano Emilio Urberuaga são super coloridas, divertidas – fazem a gente viajar  longe com o urso em suas observações e passeios pelos canos e caixas d’água. Indispensável, absolutamente indispensável! Publicado pelo selo Galerinha, da editora Record.

discurso do urso - julio cortazar

discurso do urso - julio cortazar

3. HISTÓRIA DA RESSUREIÇÃO DO PAPAGAIO

Desse livro eu falei recentemente por aqui, na semana da morte de Eduardo Galeano – ele é um dos meus escritores preferidos (gosto demais de literatura latino-americana!). Galeano tem vários livros sensacionais, entre eles O Teatro do Bem e do Mal e O Livro dos Abraços – esses dois são pequenas histórias, algumas mirabolantes, curtas, outras mais longas, todas muito criativas. É que Galeano era um grande contador de histórias, gostava delas, de tranformá-las, recontá-las. Foi o que ele fez com esse livro aqui: um dia escutou, no nordeste do Brasil, um poema em cordel que contava essa história. Resolveu escrevê-la, e fez esse livro lindo e comovente. Um papagaio curioso cai em uma panela fumengante – e morre. Tudo ao seu redor se comove: a menina chora, a laranja se despe de sua casta, o vento sopra – um oleiro do Ceará então vê todo aquele sofrimento, junta toda aquela tristeza, e ressuscita o papagaio morto, que ressurge da dor com plumas de fogo, bico de pedra, dourado cor de laranja. A tradução para o português ficou por conta de Ferreira Gullar, e as ilustrações são fotos de esculturas coloridas em madeira do espanhol Antonio Santo. Uma obra de arte, publicado por aqui pela Cosac Naify.

historia da ressurreicao do papapagaio - eduardo galeano

historia da ressurreicao do papapagaio - eduardo galeano

4. ODE A UMA ESTRELA, de Pablo Neruda

Como eu disse ali no vídeo, esse é um livro de linguagem mais complexa e menos acessível – uma poesia bem lírica e cheia de palavras difíceis e incrivelmente bonitas. Há gente que ache que a criançada não entende ou não curta, mas eu discordo, e o Francisco comigo: a história é das mais bonitas, lúdica e bem fantasiosa, e não há quem não se encante pela história do homem que rouba uma estrela do céu e faz disso um grande problema para sua vida. É que a estrela brilha demais, no bolso incomoda, escondida embaixo da cama não o deixa dormir, sua luz foge pelo telhado – e no final, o homem resolve que o melhor é devolvê-la ao rio (no vídeo eu disse mar, desculpa a confusão, turma!). Livro absolutamente lindo sobre amor, possessão, fantasia – para crianças pequeninas, grandes, para adultos sensíveis. Também da editora Cosac-Naify.

ode a uma estrela - pablo neruda

ode a uma estrela - pablo neruda

5. A VIDA ÍNTIMA DE LAURA, de Clarice Lispector

Pra terminar a lista de hoje, uma mulher: Clarice Lispector é outra grande autora para adultos que tem livros infantis e infantojuvenis também publicados. A Vida Íntima de Laura conta a história de uma…galinha. Pois é, e é essa a parte mais bacana da história, a simplicidade dela, a linguagem deliciosa, a conversa que a gente tem certeza que está tendo com a Clarice enquanto ela conta dessa galinha burrinha, medrosa e muito querida que é a Laura. Laura vive apressada; tem um filho chamado Hermany com o galo Luís, muito metido e dono de si; um dia tem que fugir das mãos de um ladrão; em outro vê sua amiga virar ensopado – a vida de Laura não é fácil afinal, mas ela é bem feliz. Aqui em casa a gente gosta mesmo é do final um tanto quanto inusitado da históruia: um habitante de Júpiter chega por aqui garantindo proteção à pequena galinha. É um livro fantasioso, delicado, inteligente, como todo livro infantil deve ser. Clássico indispensável, editado pela primeira vez em 1974! Da editora Rocco.

a vida intima de laura - clarice lispector

a vida intima de laura - clarice lispector

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28 nov 2014

para conversar sobre a morte: três livros (um digital) para ler com as crianças

Escrito por
Livros Digitais e Aplicativos, Para Conversar Sobre a Morte, Para Refletir

Olha aqui eu de volta, depois de semanas ausente – mas pera, explico: o blog vai mudar, e em breve. Vai mudar de nome, de cara, vai mudar bastante – então posso dizer que estamos trabalhando para melhor atendê-lo. Lógico que o principal não vai mudar: vou seguir compartilhando minhas leituras e experiências com o Francisco. Aliás, é muito legal o quanto algumas leituras, alguns posts que publico aqui, geram conversas e longas trocas de email.

Na próxima sexta vai fazer um mês da morte do meu pai. Na minha última passagem aqui pelo blog fiz um post grandão sobre O Menino Maluquinho e sobre o quanto o livro e o filme vem nos ajudando, a mim e ao Francisco, a superar essa recente e dolorosa perda. O que eu não esperava era o retorno tão bacana que teria com o post – gente que comentou aqui, no facebook, que escreveu para mim com coisas bonitas e dicas de livros para falar justamente sobre o assunto: a morte.

É um tabu, não adianta – ninguém gosta de conversar com as crianças sobre assuntos difíceis. Mas é necessário, não tem jeito – e quanto maior o diálogo, mais fácil fica depois. Eu percebo isso bem claramente aqui em casa. Como a gente já acompanhava a doença do meu pai há alguns meses, houve a chance de “se preparar” para a morte. Entre aspas porque ninguém se prepara de verdade para ela, não adianta – é sempre triste, doloroso, vazio. Mas uma boa aliada é a literatura, como sempre. Existem bons livros infantis que tratam do assunto – alguns de forma mais lúdica, outros mais diretamente. O importante é que abrem caminho para essa difícil conversa – e acabam tornando as coisas mais fáceis.

Separei três livros que por aqui têm nos dado bastante amparo nesse momento. Três livros infantis que tratam lindamente sobre a morte:

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1. PEDRO E LUA

Desse livro eu já falei por aqui algum tempo atrás – mas é tão bonito que eu me permito falar de volta, não me aguento. Na história do menino Pedro, rapazinho apaixonado pela lua, a morte surge com bastante sutileza. Não é dita assim, como conhecemos – mas está lá. Aqui, quem parte é a Lua, a zmiga tartaruga de Pedro. É bonito demais todo o processo no qual ele a encontra, se apega a ela e um dia a vê partir.

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Lá no post antigo que eu fiz sobre o livro eu não quis contar o final – porque é justamente esse, um dia ele volta pra casa e encontra só o casco da tartaruga. O final é inesperado e bastante triste – mas de uma delicadeza só:

“Deu dor no coração ver Pedro com saudade da amiga.

De noite, foi levar o casco de Lua para junto das pedras.

Lá, descobriu que tartaruga também tem saudades.

Lua tinha mudado de casa. Voltou para a sua.”

Acho especialmente bonito o ritual que o menino elabora: leva o casco da tartaruga para junto das pedras, acreditando que ela segue seu caminho. Sua amiga no fundo permanece, mas invisível. Fica a saudade e a lembrança. Tanto o texto quanto as ilustrações são de Odilon Moraes, e a edição é da Cosac-Naify. O texto é enxuto e curto, mas tem jeito de poesia; as ilustrações são em preto e branco, com ar de esboço, rabiscos a giz e sombra. Mais um detalhe: a capa, repleta de estrelas, brilha no escuro – um livro da cabeceira, pra admirar, ler e reler.

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2. O PATO, A MORTE E A TULIPA

Diferente do livro anterior, aqui a morte está clara – ela está no título e tem aquele jeitão de morte que a gente teme, com corpo comprido e cabeça de caveira. Mas essa não dá medo não – é engraçado dizer isso, mas é quase reconfortante como a morte aqui é tratada.

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Um dia, o pato para e pergunta para aquela senhora-caveira o que ela faz andando atrás dele. Já há algum tempo que ele não vinha se sentindo bem. Ela explica quem é, deixa o pato intrigado. Mas dali surge uma espécie de amor e de amizade. É como se a morte, cheia de paciência, fosse acostumando o pato com a ideia de que ele está partindo, toda carinhosa. Eles passeiam, têm longas conversas, dormem abraçados. Gosto especialmente de quando o pato sobe com ela em uma árvore e observa o lago:

“Lá de cima dava para ver o lago. 

Tão tranquilo – e tão solitário.

‘Vai ser assim quando eu estiver morto’, pensou o pato. 

‘O lago, sozinho, sem mim.’

Às vezes, a morte podia ler pensamentos. 

– Quando você estiver morto, o lago também não vai mais estar lá – pelo menos não para você.”

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Depois de passeios, conversas (a morte se vê respondendo diversas perguntas) e abraços, o pato morre. Aí é de apertar o coração com tanta beleza: a morte o carrega até o lago, ajeita suas penas. Deita-o sobre a água e coloca uma tulipa sobre seu corpo. Sente quase uma tristeza ao vê-lo partir – mas então pensa: “é a vida”.

Foi essa a história que mais incentivou perguntas e conversas sobre a morte aqui em casa. O Francisco, logo na primeira vez em que lemos o livro, me perguntou: “mãe, me diz uma coisa: você é a morte?”. Eu disse que não, “por que você achou isso?”. A resposta dele: “porque você me disse que ia enterrar o vovô”. Expliquei que era o corpo que enterrávamos – e que dali esse corpo viraria árvore, rio, estrela.

Alguns dias depois o Francisco volta da aula me dizendo: “eu vi o vovô hoje, lá na escola”. Perguntei onde. A resposta dele: “em um passarinho”. Acho que entendeu bem, do seu jeitinho, o ciclo da vida. Vovô segue, mas em outra forma, de outro jeito. É a vida, como diz ali a própria morte. O livro é ilustrado e escrito pelo alemão Wolf Erlbruch, e no Brasil a edição é também da Cosac-Naify.

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3. ES ASÍ

Esse aqui foi uma surpresa. Baixei o aplicativo porque fiquei curiosa com as ilustrações  – não esperava que fosse descobrir ali um livro tão bonito! Es Así trata da morte de um jeito simples, sem firula alguma. Trata mesmo é do ciclo da vida – todos nascemos e morremos. É direto, como o título: afinal, “é assim”.

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Mas a delicadeza está em toda parte: o livro é delicado nos traços, nas cores, nas expressões dos personagens, nos mínimos detalhes. Na história, é pura simplicidade. Começa logo assim (em uma tradução livre minha):

“Alguns já partiram.

O gato do vizinho, a tia Margarida, o peixe da sopa de ontem.

Outros chegarão.”

E segue. Minha parte preferida é uma na qual os que vão se cruzam no ar com os que estão chegando – se desejam felicidade e seguem seu caminho. Me emociono com ela. O texto é pouco, mas basta – ficam nas ilustrações o monte de detalhes e segredos. Essa é outra coisa bacana: o livro permite bastante interatividade. A sopa que se termina, o cumprimento dos que se encontram, dá para tocar e brincar. O Francisco se diverte – cada página tem que ser amplamente explorada, nenhum canto sai despercebido.

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Uma coisa: só em espanhol e em inglês. São as únicas opções – uma pena não ter também português. Aqui em casa a gente ouve em espanhol – é bem fácil de entender e a narração é bonita demais para os ouvidos. Tanto o texto quanto as ilustrações são da chilena Paloma Valdivia. O livro digital, disponível para Ipad, custa cerca de 5 dólares na loja da Apple.

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9 jul 2014

Pedro e Lua

Escrito por
Livros

Eu gosto muito de acompanhar o blog Leitura em Rede – lá sempre tem dicas preciosas de leitura, listas bacanas e textos interessantes. Coisa recente são os bate-papos do canal do youtube A Taba, que muito valem a pena assistir – a conversa com a Cris Tavares foi uma das minhas preferidas, sobre como escolher livros infantis. Ela destaca pontos bem importantes – como o fato de não ser possível dividir literatura infantil por faixa etária, o quanto é essencial ouvir a criança na escolha dos livros e também aponta nomes da nova literatura infantil brasileira. Foi através dessa conversa que conheci a obra de Odilon Moraes e outros autores e ilustradores que me despertaram a curiosidade.

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Um dia, nessas promoções malucas e sensacionais da Cosac Naify (vale ficar sempre de olho), comprei um bocado de livros legais com mais de 40% de desconto – entre eles, dois de Odilon Moraes: A Princesinha Medrosa e Pedro e Lua, esse que mostro hoje pra vocês.  Livro lindo, emocionante, que aborda temas especiais, como amizade, saudade e até morte.

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A história é assim: Pedro é um rapazinho encantando pela lua. Desde que descobriu que ela era uma pedra enorme flutuando no céu, ficou admirado – seu nome queria dizer pedra, assim como era a lua. Um dia ele tropeça em uma pedra e pensa que todas elas só podem ser pedaços da lua que caíram lá de cima – e devem sentir muita saudade de casa. Assim, ele começa a empilhá-las, todas as noites, o mais perto que pode da lua. Até uma noite em que uma pedra um pouco diferente cruza seu caminho – era, na verdade, uma tartaruga:

“Pedro logo descobriu que era uma tartaruga,

mas como seu casco parecia uma grande lua esverdeada,

ele a chamou – Lua.

Lua adorava quando Pedro a colocava no topo das pedras.

De lá podia ver o mundo, grande e infinito, iluminado pela luz da lua.”

 

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Dali eles desenvolvem uma bonita amizade – e bem, o final é lindo e emocionante, eu não vou ousar estragar contando aqui. A história é curtinha, mas as frases são lindas, eficientes, quase poesia. As ilustrações e o texto têm uma harmonia impressionante – é daqueles livros sem faixa etária mesmo, pra gente grande e gente pequena se emocionar. Ah, e sim – a capa, bonita demais, brilha no escuro.

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Pedro e Lua

Autor/Ilustrador: Odilon Moraes

Editora: Cosac Naify