oi! meu nome é daisy e aqui eu compartilho minhas aventuras literárias (e mais), com meus filhos francisco, de 6 anos, e vinícius, ainda bebê. seja bem-vindo! Leia mais



9 set 2015

4 Livros Infantis Divertidos para Ajudar no Desfralde

Escrito por
Desfralde, Destaques, Fases e momentos especiais, Listas de Livros, Livros

Tá aí um post que eu tô pra fazer há tempo – desde a época do desfralde do Francisco, na verdade, que hoje já está com 5 anos de idade. Falando assim, parece que faz séculos, mas a verdade é que nem faz. É que aqui em casa o desfralde foi longo e bem trabalhoso. Tentamos algumas vezes sem sucesso, e quando de fato a fralda saiu o que não saía mais era o…cocô. Pois é – a relutância com penico era tão grande que ele começou a segurar o quanto podia – e isso durou muito, muito tempo. Não foi fácil – mas no final deu tudo certo. A verdade é que cada criança tem seu tempo, seus medos e receios – e o desfralde exige muita paciência e dedicação. Uma coisa importante e que aqui fez toda a diferença foi deixar a coisa toda o mais parecido com uma brincadeira possível, usar e abusar do lúdico. Livros infantis divertidos que tratam do assunto (xixi, cocô e afins) são belos aliados nessa hora – por isso, escolhi 4 que valem ter em mãos na hora do desfralde.

1.O QUE TEM DENTRO DA SUA FRALDA?

Tá aí um clássico do desfralde, conhecido de muita gente e queridinho de muita criança – esse é um livro bem bacana para os pequenos que estão partindo das fraldas para o penico. Já falei do livro por aqui lá no início de 2013 (e depois até rolou sorteio) – é dos nossos preferidos no assunto, de longe. Não há criança que resista aos pequenos bichinhos e suas fraldas repletas de cocô, essa é a verdade – o livro é bonitinho, engraçado e bastante interativo: no caso, a interação é abrir fraldas alheias, através de divertidas abinhas. Na história, um ratinho muito do curioso e intrometido vai bisbilhotando a fralda de cada um dos seus amigos – aí é coelho, cachorro, nem o bezerro escapa da indiscrição. Todos têm a fralda suja – mas quando chega a hora do ratinho, tcha-ran! A fralda está limpinha. Os bichinhos ficam todos perplexos até entender que…ah, o ratinho já partiu pro penico. Ele mostra então seu penico repleto de cocozinhos e assim termina o livro, cada bichinho no seu penico, feliz da vida. Como eu disse, um clássico – ficou um tempão esgotado para desespero das mães em fase de desfralde, mas já foi reeditado. Da Brinque-Book.

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2. CADÊ O MEU PENICO?

Outro clássico! Falei dele também por aqui na época: é que eu não podia ver livro sobre penico, cocôs e afins que eu trazia pra casa. Alguns fizeram muito sucesso, outros muito pouco – esse aqui foi um dos que o Francisco curtiu bastante. Livrinho mais simples, sem abas ou nada parecido, mas com uma história muito divertida e cheio de rimas e repetição – já falei, os pequenos adoram isso e é uma excelente forma de fisgar sua atenção. Aqui, a história é da pequena Hortênsia, garotinha apurada para ir ao banheiro – problema é que não há jeito dela encontrar o penico, que está sendo usado por todos os animais da fazenda. Eles não sabem que é um penico, chamam de “pote cocozeiro” (nem preciso dizer que aqui em casa até hoje penico é tratado assim, né?). Então há esse belo desencontro: penico ninguém sabe o que é, mas esse pote cocozeiro…que belíssima invenção! Quando a Hortênsia não se aguenta mais mesmo e vai partir para o matinho, os bichos entram em desespero – e oferecem pra ela o tal pote cocozeiro. Um livro pra rir muito com os pequenos e deixar mais leve qualquer desfralde! Publicado pela Companhia das Letrinhas.

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3. QUERO MEU PENICO

Esse eu emprestei lá da biblioteca, recentemente – por isso, não fez parte do nosso desfralde, mas é um livro tão divertido que olha, queria ter conhecido antes. Fez o Francisco rir adoidado – as ilustrações de Tony Ross são muito engraçadas e caricatas, isso já diverte! Aqui, a princesinha começa cansada da sua fralda, mas reluta um bocadinho pra usar o penico. Aí é ela se escondendo atrás do sofá pra fazer cocô (gente, o Francisco fez TANTO isso que deuzolivre), fugindo por aí. “O certo é no penico”, diz a rainha. Até um dia em que a princesinha decide que então….ela quer penico. Aí é um deus nos acuda, gente gritando pra tudo que é lado – grita o rei, a camareira, o cozinheiro, o jardineiro, todos correndo esbaforidos atrás do penico da princesinha. Quando o penico finalmente chega…é tarde demais. Tá aí, outra coisa que acontece (e muito): acidentes no trajeto fralda-penico. Um jeito bacana da criançada se sentir confortável com eles é assim, vendo que acontece mesmo, com todo mundo – inclusive com as princesinhas. Mais um livro engraçado e divertido sobre o desfralde, publicado pela Martins Fontes.

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4. DA PEQUENA TOUPEIRA QUE QUERIA SABER QUEM FEZ COCÔ NA CABEÇA DELA

O nome é longo, eu sei – tem que ver o Francisco tentando lembrar dele todo, eu me divirto. Esse não é exatamente um livro sobre o desfralde, mas como trata de cocô, achei que podia ajudar também – por aqui ajudou. Aliás, volta e meia ajuda, é um livro que serve pra muita coisa na vida – conta a muito engraçada história de uma toupeira míope (pois é) que um dia acorda com um cocozão na cabeça. Aí lá sai ela, muito indignada, interrogando cada um dos bichos – quem teria feito aquele desaforo? O nosso livro é pop-up, e permite diversas interações com os cocozinhos – mas como eu disse no vídeo, aqui eles foram de desfazendo nas muitas leituras. Hoje eu compraria a versão simples mesmo – afinal, o divertido aqui mesmo é a história. Olha, garanto: não há criança que não caia na gargalhada com a toupeira e seu enigma do cocô. Ah, no final ela descobre, com a ajuda de duas moscas, quem foi o culpado: o cachorro do açougueiro – e resolve se vingar fazendo o mesmo. Muitos cocozinhos de toupeira na cabeça do cão e lá sai ela fugindo, vitoriosa! Publicado pela Companhia das Letrinhas.

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…hoje foram só quatro livros, quatro que lemos e aprovamos – mas a verdade é que não falta por aí literatura para ajudar na época do desfralde. A Michelle, do Vida Materna, já falou um bocado sobre o desfralde (vale ler as dicas dela, viu?) e indicou o Hora do Penico (e também o do ratinho!). A Kênia, lá do Vira-Páginas, fez uma lista ótima (de utilidade pública!), com vários outros livros que falam sobre o tema. É abastecer a biblioteca com o assunto e…boa sorte no desfralde, que acreditem, passa! 😀


24 jun 2015

7 livros para conversar sobre a morte e outros assuntos difíceis

Escrito por
Destaques, Listas de Livros, Livros, Para Conversar Sobre a Morte, Para Refletir

Uma das coisas que descobri desde que me apaixonei junto com o Francisco pela boa literatura infantil é que ela tem um poder especial: consegue deixar mais leve os assuntos mais difíceis. A morte é um deles – já falei algumas vezes sobre livros que muito ajudaram a abordar e procurar entender esse assunto por aqui. Aqui, sete livros mais do que especiais, que aqui em casa renderam leituras e conversas:

1. HARVEY – COMO ME TORNEI INVISÍVEL 

Já fiz um textão longo sobre o Harvey aqui, na primeira vez que li o livro – foi uma supresa enorme, não imaginava o que me esperava ali dentro. Esse é um livro pra crianças mais velhas, acima de 9 anos, pela indicação da editora – mas é um livro pra emocionar muito adulto também. Na história, o menino Harvey e o irmão Cantin perdem o pai. Chegam em casa depois de brincar e deparam-se com a ambulância levando o corpo, a mãe as prantos – e então Harvey (o livro é na voz dele) tem que lidar com a ausência do pai. Entrar em casa, encarar o ambiente vazio (Harvey, entre outras coisas, não entende como o carro do pai ainda está na garagem se ele não está lá), a solidão da primeira noite. Harvey vai se sentindo pequeno sem o pai, se tornando invisível. As ilustrações acompanham a história lindamente – e ao folhear o pequeno livro, a sensação é de estar acompanhando um filme. Emocionante, triste, bonito demais. Da editora Pulo do Gato.

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2. A PRECIOSA PERGUNTA DA PATA

Esse livro me foi indicado quando falei aqui pela primeira vez sobre o assunto, a morte – e foi um dos mais bacanas que li com o Francisco. É um livro bacana de ler com os mais pequenos (no site da editora a indicação é a partir de 1 ano) – na primeira vez que lemos, o Francisco acompanhou atento, fez várias perguntas e terminou com um sorriso. Lemos algumas noites seguidas, a pedido dele, e conversamos sobre o que será que acontece quando morremos (o Francisco jura que o vovô virou passarinho, e que já cruzou com ele na escola). É essa a tal pergunta da pata: ela acaba de perder um filhotinho, e comparece a uma reunião onde os bichos debatem assuntos difíceis querendo saber isso, para onde vamos quando não estamos mais aqui. Cada um dá sua resposta, conforme o que imagina – o rio vai virar mar, o sol não vai sentir mais tanto calor, o rato voltará enorme como um elefante. Apesar do assunto difícil, o livro é leve, fácil de ler. Escrito pela belga Leen van den Berg. Nossa cópia emprestamos da Biblioteca Pública – devolvi o livro com um aperto no coração, admito! Da Brinque-Book.

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3. O PATO, A MORTE E A TULIPA

Outro livro que já passou por aqui antes – e esse faço questão de trazer de volta, porque foi um dos livros mais importantes que já passaram pelas nossas mãos. Também, assim como o livro aqui em cima, fez a gente conversar um bocado. Um dia o pato percebe que há uma senhora caveira andando junto dele  – já fazia tempo que ele não se sentia muito bem, e ele resolve perguntar o que ela faz por ali. Ela então responde que é a morte – e diz que anda por perto, na verdade, desde que ele nasceu, mas que agora é hora de levá-lo. O pato fica inconformado, não quer ir embora – e a morte, com muita calma e paciência, vai o acompanhando e respondendo suas perguntas. Os dois se tornam amigos próximos – chegam a dormir abraçados, o pato aconchegado à morte. Até que ele não acorda – e aí, o final, me emociona sempre: a morte deita o pato sobre o rio e dá um leve empurrãozinho. Por pouco não fica triste – mas pensa: assim é a vida. Escrito e ilustrado por Wolf Erlbruch, publicado no Brasil pela Cosac-Naify.

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4. A GRANDE QUESTÃO

Esse é outro livro de Wolf Erlbruch, o autor e ilustrador do livro aí em cima, O Pato, A Morte e a Tulipa – e vou contar, é muito difícil não não se encantar pelas obras do alemão! Aqui, a grande questão é a pergunta: afinal, por que estou aqui? A cada página dupla, um personagem diferente responde. O gato tem sua resposta, o soldado, o coelho – e também o pato e a morte, ali, do livro anterior. Algumas são cômicas, outras emocionam, todas são criativas demais e acompanham uma ilustração divertida. O comilão diz: “você está aqui para comer bem, aí está o porquê.”; a pedra: “você está aqui para confiar”; a morte: “você está aqui para amar a vida”. Tão bonito! Também da Cosac-Naify.

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5. FICO À ESPERA

Foi o pessoal da Biblioteca Pública quem me indicou esse livro, e emprestamos também ele de lá – eu conhecia o Davide Cali do livro “O que é o Amor?” e do “Um Dia um Guarda-Chuva”, ambos portugueses. Que livro diferente! Primeiro, o formato: tem a forma de um envelope, retangular – deixa logo a gente curioso. Dentro dele ilustrações delicadas e um fio de lã vermelho, que percorre o livro todo e acompanha a vida de um garoto: sua infância, adolescência, fase adulta e velhice. Cada momento, uma espera: ele está à espera e crescer, do beijinho de dormir, da partida do trem, da guerra, do nascimento do filho. Uma leitura deliciosa. Ilustrado pro Serge Bloch, publicado pela Cosac-Naify.

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6. EU ME PERGUNTO…

Se o livro “A Grande Questão” traz as respostas mais divertidas, O “Eu me pergunto…” traz perguntas, e as mais difíceis perguntas – e cabe a nós conversar e procurar as respostas. O que é o tempo? Tudo que já aconteceu desaparece para sempre? Foi Deus quem criou os seres humanos? Ou fomos nós que criamos esse Deus em nossas cabeças? – essas são algumas delas. Um convite a à filosofia, para ler com crianças mais velhas. Escrito pelo norueguês Jostein Gaarder, o mesmo autor de um livro que muita gente curte demais: O Mundo de Sofia. Publicado pela Companhia das Letrinhas.

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7. O ANJO-DA-GUARDA DO VOVÔ

Arrisco dizer que esse é preferido do Francisco, aqui dessa lista – especialmente porque ele se reconheceu na história do garotinho do livro, que ouve atento histórias do vovô, deitado na cama do hospital. As ilustrações e o texto se complementam, e está nos desenhos um detalhe precioso: o avô vai contando do que já fez durante a vida, das coisas que aprontou, do que passou. Mas em cada situação de perigo pela qual ele passa, um anjo o acompanha, zelando pela sua vida: segura um ônibus que quase o atropela, ajuda ele a carregar peso, afasta nuvens chuvosas, até faz papel de cupido. No final, o vovô fecha os olhos – e seu anjo agora segue acompanhando o netinho, sem que ele perceba. É de encher os olhos de lágrimas a cada leitura, encher o coração de saudade, mas também de conforto. Mais um livro lindo e tocante da alemã Jutta Bauer, a mesma autora e ilustradora do Mamãe Zangada. Publicado pela Cosac-Naify

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28 nov 2014

para conversar sobre a morte: três livros (um digital) para ler com as crianças

Escrito por
Livros Digitais e Aplicativos, Para Conversar Sobre a Morte, Para Refletir

Olha aqui eu de volta, depois de semanas ausente – mas pera, explico: o blog vai mudar, e em breve. Vai mudar de nome, de cara, vai mudar bastante – então posso dizer que estamos trabalhando para melhor atendê-lo. Lógico que o principal não vai mudar: vou seguir compartilhando minhas leituras e experiências com o Francisco. Aliás, é muito legal o quanto algumas leituras, alguns posts que publico aqui, geram conversas e longas trocas de email.

Na próxima sexta vai fazer um mês da morte do meu pai. Na minha última passagem aqui pelo blog fiz um post grandão sobre O Menino Maluquinho e sobre o quanto o livro e o filme vem nos ajudando, a mim e ao Francisco, a superar essa recente e dolorosa perda. O que eu não esperava era o retorno tão bacana que teria com o post – gente que comentou aqui, no facebook, que escreveu para mim com coisas bonitas e dicas de livros para falar justamente sobre o assunto: a morte.

É um tabu, não adianta – ninguém gosta de conversar com as crianças sobre assuntos difíceis. Mas é necessário, não tem jeito – e quanto maior o diálogo, mais fácil fica depois. Eu percebo isso bem claramente aqui em casa. Como a gente já acompanhava a doença do meu pai há alguns meses, houve a chance de “se preparar” para a morte. Entre aspas porque ninguém se prepara de verdade para ela, não adianta – é sempre triste, doloroso, vazio. Mas uma boa aliada é a literatura, como sempre. Existem bons livros infantis que tratam do assunto – alguns de forma mais lúdica, outros mais diretamente. O importante é que abrem caminho para essa difícil conversa – e acabam tornando as coisas mais fáceis.

Separei três livros que por aqui têm nos dado bastante amparo nesse momento. Três livros infantis que tratam lindamente sobre a morte:

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1. PEDRO E LUA

Desse livro eu já falei por aqui algum tempo atrás – mas é tão bonito que eu me permito falar de volta, não me aguento. Na história do menino Pedro, rapazinho apaixonado pela lua, a morte surge com bastante sutileza. Não é dita assim, como conhecemos – mas está lá. Aqui, quem parte é a Lua, a zmiga tartaruga de Pedro. É bonito demais todo o processo no qual ele a encontra, se apega a ela e um dia a vê partir.

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Lá no post antigo que eu fiz sobre o livro eu não quis contar o final – porque é justamente esse, um dia ele volta pra casa e encontra só o casco da tartaruga. O final é inesperado e bastante triste – mas de uma delicadeza só:

“Deu dor no coração ver Pedro com saudade da amiga.

De noite, foi levar o casco de Lua para junto das pedras.

Lá, descobriu que tartaruga também tem saudades.

Lua tinha mudado de casa. Voltou para a sua.”

Acho especialmente bonito o ritual que o menino elabora: leva o casco da tartaruga para junto das pedras, acreditando que ela segue seu caminho. Sua amiga no fundo permanece, mas invisível. Fica a saudade e a lembrança. Tanto o texto quanto as ilustrações são de Odilon Moraes, e a edição é da Cosac-Naify. O texto é enxuto e curto, mas tem jeito de poesia; as ilustrações são em preto e branco, com ar de esboço, rabiscos a giz e sombra. Mais um detalhe: a capa, repleta de estrelas, brilha no escuro – um livro da cabeceira, pra admirar, ler e reler.

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2. O PATO, A MORTE E A TULIPA

Diferente do livro anterior, aqui a morte está clara – ela está no título e tem aquele jeitão de morte que a gente teme, com corpo comprido e cabeça de caveira. Mas essa não dá medo não – é engraçado dizer isso, mas é quase reconfortante como a morte aqui é tratada.

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Um dia, o pato para e pergunta para aquela senhora-caveira o que ela faz andando atrás dele. Já há algum tempo que ele não vinha se sentindo bem. Ela explica quem é, deixa o pato intrigado. Mas dali surge uma espécie de amor e de amizade. É como se a morte, cheia de paciência, fosse acostumando o pato com a ideia de que ele está partindo, toda carinhosa. Eles passeiam, têm longas conversas, dormem abraçados. Gosto especialmente de quando o pato sobe com ela em uma árvore e observa o lago:

“Lá de cima dava para ver o lago. 

Tão tranquilo – e tão solitário.

‘Vai ser assim quando eu estiver morto’, pensou o pato. 

‘O lago, sozinho, sem mim.’

Às vezes, a morte podia ler pensamentos. 

– Quando você estiver morto, o lago também não vai mais estar lá – pelo menos não para você.”

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Depois de passeios, conversas (a morte se vê respondendo diversas perguntas) e abraços, o pato morre. Aí é de apertar o coração com tanta beleza: a morte o carrega até o lago, ajeita suas penas. Deita-o sobre a água e coloca uma tulipa sobre seu corpo. Sente quase uma tristeza ao vê-lo partir – mas então pensa: “é a vida”.

Foi essa a história que mais incentivou perguntas e conversas sobre a morte aqui em casa. O Francisco, logo na primeira vez em que lemos o livro, me perguntou: “mãe, me diz uma coisa: você é a morte?”. Eu disse que não, “por que você achou isso?”. A resposta dele: “porque você me disse que ia enterrar o vovô”. Expliquei que era o corpo que enterrávamos – e que dali esse corpo viraria árvore, rio, estrela.

Alguns dias depois o Francisco volta da aula me dizendo: “eu vi o vovô hoje, lá na escola”. Perguntei onde. A resposta dele: “em um passarinho”. Acho que entendeu bem, do seu jeitinho, o ciclo da vida. Vovô segue, mas em outra forma, de outro jeito. É a vida, como diz ali a própria morte. O livro é ilustrado e escrito pelo alemão Wolf Erlbruch, e no Brasil a edição é também da Cosac-Naify.

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3. ES ASÍ

Esse aqui foi uma surpresa. Baixei o aplicativo porque fiquei curiosa com as ilustrações  – não esperava que fosse descobrir ali um livro tão bonito! Es Así trata da morte de um jeito simples, sem firula alguma. Trata mesmo é do ciclo da vida – todos nascemos e morremos. É direto, como o título: afinal, “é assim”.

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Mas a delicadeza está em toda parte: o livro é delicado nos traços, nas cores, nas expressões dos personagens, nos mínimos detalhes. Na história, é pura simplicidade. Começa logo assim (em uma tradução livre minha):

“Alguns já partiram.

O gato do vizinho, a tia Margarida, o peixe da sopa de ontem.

Outros chegarão.”

E segue. Minha parte preferida é uma na qual os que vão se cruzam no ar com os que estão chegando – se desejam felicidade e seguem seu caminho. Me emociono com ela. O texto é pouco, mas basta – ficam nas ilustrações o monte de detalhes e segredos. Essa é outra coisa bacana: o livro permite bastante interatividade. A sopa que se termina, o cumprimento dos que se encontram, dá para tocar e brincar. O Francisco se diverte – cada página tem que ser amplamente explorada, nenhum canto sai despercebido.

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Uma coisa: só em espanhol e em inglês. São as únicas opções – uma pena não ter também português. Aqui em casa a gente ouve em espanhol – é bem fácil de entender e a narração é bonita demais para os ouvidos. Tanto o texto quanto as ilustrações são da chilena Paloma Valdivia. O livro digital, disponível para Ipad, custa cerca de 5 dólares na loja da Apple.

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