#DesafiodaCigarra2020 / Tema 1: AUTORITARISMO

Meu livro escolhido: A Redação, de Antonio Skarmeta e Alfonso Ruano

Já contei pra vocês: esse ano, inspirada em booktubers de literatura adulta (chique!), resolvi inventar também um desafio literário infantil e ilustrado: o #DesafioDaCigarra2020 (pra saber mais sobre ele, só clicar aqui).

O primeiríssimo tema, proposto para o mês de janeiro (mas postado com certo atraso, mas estou certa de que vocês vão perdoar essa mãe de duas crianças em pleno recesso escolar), foi AUTORITARISMO. Escolhi que esse fosse um dos primeiros assuntos justamente por conta de sua urgência.

Às vezes a gente tem a ideia de que a infância é um mundo à parte, um lugar naturalmente protegido de tudo que os adultos vivenciam; mas não é bem assim. As crianças são muito atentas e estão constantemente absorvendo tudo ao seu redor: escutando trechos de nossas conversas, falas do jornal que passa na televisão, da rádio que se escuta no trajeto de carro até a escola. E, a partir de tudo isso, elaborando seus entendimentos, a partir de seus repertórios e vivências.

É aí que acredito que a literatura entra como um terreno seguro e sensível para se conversar sobre temas muitas vezes difíceis até para nós, adultos. O autoritarismo, por exemplo, é algo presente nas relações humanas; no trabalho, em casa, na escola, e pode surgir das mais diversas formas. Mas é inevitável relacionar o tema a uma forma de governo, e é nesse viés, o político, que fiz minha escolha para o desafio.

Somos ensinados desde muito pequenos que política é algo chato demais, e é aí que está o perigo. Crescemos completamente alheios a ela, alheios a decisões feitas por políticos que aí sim: se interessam por ela e decidem por nós.

Mas por que escolhi, entre mais de 20 livros sobre o assunto pelos quais passeei nesse mês, A Redação? Pela experiência estética dele. Pela edição, pela qualidade literária, pelas ilustrações, pela tradução, por sua história redondinha e fascinante.

Conheci esse livro em 2018, em uma das primeiras aulas da pós-graduação em literatura infantil e juvenil que faço em São Paulo, em uma aula ministrada pela professora Sandra Medrano. A professora começou a aula justamente com a leitura dele, a turma toda ficou arrepiada e eu nunca mais esqueci esse livro.

Em A Redação a gente acompanha a vida do Pedro. A narrativa é na terceira pessoa, mas é através do olhar dele, de um menino de 9 anos, que a gente vai acompanhar a história e refletir sobre o autoritarismo. Mas como boa literatura, o assunto é abordado sem didatismo algum, sem pretensão alguma de ensinar algo para a criança. O assunto permeia uma história linda que envolve futebol, escola, família –– e tem um final surpreendente.

Em casa, o Pedro percebe que há algum tempo os pais escutam ansiosos uma rádio que traz notícias de longe e que ele não entende muito bem. Ele não entende, mas nota a angústia dos pais. E a vida segue, entre amigos e jogos de futebol, como a vida de qualquer criança.

Um dia, ele vê o pai do amigo Daniel, dono da mercearia do bairro, sendo preso por soldados com metralhadoras. Todos vêem. Alguns fecham as janelas, as portas, outros se aproximam. A cena acontece de tal forma que a dureza do autoritarismo fica muito clara – seja no texto de Skármeta, seja nas ilustrações realistas de Alfonso Ruano.

Quando perguntado porque seu pai havia sido preso, o menino Daniel, que segura as chaves da mercearia, responde: “porque ele é contra a ditadura”. Isso fica na cabeça do Pedro, se mistura ao que seus pais ouvem através do rádio, à tristeza da mãe. No dia seguinte à prisão, acontece algo diferente na escola. Um militar aparece por lá com uma missão: os alunos têm que escrever uma redação sobre o que seus pais fazem em casa à noite, os amigos que recebem, o que conversam, o que escutam.

As crianças começam a escrever, cada um do seu jeito – e se enrolam, perguntam se pode ser de caneta, se pode ser na folha quadriculada, ninguém sabe muito bem por onde começar. Mas fazem. É aí que a gente se surpreende com a astúcia das crianças, percebendo-a através do personagem Pedro. É uma história de ficção, escrita pelo chileno Antonio Skármeta, que tem outros livros infantis muito bons e livros adultos também – aliás, é dele o romance O Carteiro e o Poeta, que nos anos 90 virou um filme.

Sobre o assunto, autoritarismo, há muitos livros bons. Ainda pretendo dividir outros – mas esse é um dos pioneiros, como diz Dolores Prades em um excelente texto publicado na Revista Emília:

“A Redação é um livro que quebra o mito dos chamados temas tabus na literatura infantil. Com honestidade, respeito, sensibilidade e poesia, é possível falar sobre qualquer assunto para as crianças, até os mais difíceis.”

Pioneiro e inesquecível.

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Outros 10 livros que de alguma forma abordam o tema, todos sugeridos por vocês <3

Daqui Ninguém Passa

O Muro

Nino, o Rei de Todo o Mundo

Jornada

O Reizinho Mandão

A Força da Palmeira

A Rainha das Rãs

Se Os Tubarões Fossem Homens

Quando As Cores Foram Proibidas

O Grande Chefe

* para ver outros livros compartilhados no desafio, só clicar aqui.

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