#DesafiodaCigarra2020 / Tema 2:

PROTAGONISMO NEGRO

O segundo mês do desafio da cigarra terminou e nele a gente conversou lá no instagram sobre assunto muito importante, muito urgente: a busca pelo protagonismo negro na literatura infantil e ilustrada. Por que afinal, a gente devia ficar mais atento a isso nos livros que a gente escolhe para nossas crianças?

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Esse é um assunto que muita gente me pede, há algum tempo, e eu admito pra vocês que eu sempre tive um pouco de receio em falar a respeito. Eu sempre pensei assim: mas sério, por que eu, mulher de pele branca, vou indicar livros com protagonismo negro? Quem sou eu pra falar sobre isso? E assim, realmente isso é algo que tem que ser levado em consideração, sempre: reconhecer o lugar da onde se fala. 

Mas sabe o que acontece? A gente tem que cuidar pra não se acomodar usando esse argumento. Eu comecei a me dar conta de que o lugar da onde eu falo é sim de uma mulher que nunca sofreu preconceito por conta da sua pele, nunca vivenciou isso; mas é também de uma pessoa que estuda, que ama e que divulga a literatura infantil. Eu comecei a refletir sobre o meu alcance especialmente entre professoras, professores, pais e mães e entendi que sim, que já era mais que hora de trazer essa questão à tona, sair da zona de conforto e tirar quem mais eu pudesse de dentro dela junto comigo.

Foi lendo um pequeno livro aqui que eu tomei coragem de vez: Pequeno Manual Antirracista, da Djamilla Ribeiro.  Nesse livro, que traz um assunto muito sério mas é muito gostoso de ler, muito acessível, a Djamila traz o racismo pro debate e sugere, tim-tim por tim-tim, dez formas do leitor refletir e começar a agir contra o racismo. Sabe aquela história de “ah, mas eu não sou racista, por favor”! Então, ela não basta. 

Aliás, é a própria Djamila quem diz, logo na introdução: “nunca entre numa discussão dizendo ‘mas eu não sou racista’. O que está em questão não é um posicionamento moral, individual, mas um problema estrutural. A questão é: o que você está fazendo ativamente pra combater o racismo?”

Eu não sei pra vocês, mas pra mim isso foi uma provocação e um convite. Eu comecei a pensar: o que eu estou fazendo pra combater o racismo? Por que que eu, que trabalho criando conteúdo de literatura infantil há tanto tempo, nunca levantei essa questão? Essa foi a provocação. E o convite foi: bora entrar na luta. Bora buscar o protagonismo negro nos livros que oferecemos aos nossos filhos e filhas, alunos, sobrinhos, afilhados e além…uma atitude simples, como diz a própria Djamila, que pode ajudar as próximas gerações a serem antirracistas. 

Mas vale lembrar que dentro dessa questão tem outra bem importante:: os negros representam mais de metade da nossa população, mas são muito pouco representados nos livros infantis e ilustrados, isso é fato. Quando são, aparecem nos esteriótipos, aparecem como vítimas (geralmente salvas por pessoas brancas, como o Flávia e o Bolo de Chocolate que eu já discuti com vocês), aparecem pra falar sobre cabelo crespo, sobre tudo-bem-ser-diferente e por aí vai. 

E ASSIM: tudo bem falar sobre a questão racial, sobre a questão cultural, religiosa, há livros que abordam esses temas de forma linda, como por exemplo os livros da Kiusam de Oliveira.  Mas acho especialmente difícil encontrar livros legais, livros bons, que tenham personagens negros e negras apenas vivendo a vida, sabe? Que traga o homem negro e a mulher negra, que traga o menino negro e a menina negra como eles estão na sociedade: em todo lugar. 

A minha escolha pro desafio segue essa linha, de certa forma. Pra mim, é uma história de duas mulheres muito fortes e decididas (inclusive já falei dele no canal num vídeo sobre isso), uma história de descoberta das palavras, das possibilidades da leitura e também uma história de amor. O livro é o “Letras de Carvão”, de Irene Vasco e do Juan Palomino, publicado pela Pulo do Gato.

Ela começa com uma mãe que se emociona vendo o filho escrevendo e relembra de sua história: ela pergunta pra ele: você quer que eu conte a história de como aprendi a ler? E ela conta: naquele povoado, naquela época, quase ninguém sabia ler ou escrever. Um dos poucos que sabia era o senhor Veloso, dono da mercearia, que costumava escrever na parede, com giz, o nome dos vizinhos e quanto deviam.

Todas as semanas chegavam frutas e verduras no porto e também cartas. A Gina, irmã da nossa narradora, recebia uma carta por mês. Ela não sabia o que tava escrito nelas, mas sabia que eram cartas do Miguel, um jovem médico que havia trabalhado alguns meses no povoado. As duas irmãs morriam de curiosidade de saber o que estava escrito nessas cartas, e imaginavam juntas grandes promessas de amor.

Essas cartas se tornaram uma obsessão pra nossa narradora, que queria porque queria contar pra irmão o que elas diziam. E foi assim, por conta das cartas, que ela decidiu aprender a ler. 

Começou a trabalhar na mercearia junto com o senhor Veloso – em troca de ajuda pra empacotar os grãos, ele a ensinava a ler com os nomes escritos na parede. E enquanto aprendia, nossa narradora ensinava também os vizinhos, os irmãos e a própria Gina, escrevendo no chão letras de carvão. 

Mas enquanto elas aprendiam as letras, as cartas começavam a ficar cada vez mais raras. Então um dia, perto do Natal, Gina recebe uma carta de Miguel, as duas sobem numa mangueira pra finalmente poder ler o que ela dizia –– e a notícia não é nada boa (no vídeo eu conto!). A história não termina aí, apesar de esse ser o ápice dela e basicamente matar o leitor do coração.  O final, o final é mais bonito do que vocês imaginam. E o mais legal: é uma homenagem linda às letras, as palavras, a leitura e os livros. 

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Esse povoado onde a história se passa, que se chama Palenque, é um povoado fictício. Em português, palenque quer dizer quilombo. A Irene Vasco, autora, que é colombiana, tem 68 anos e durante muito tempo trabalhou também com formação de leitores.

Ela percorria esses pequenos povoados e comunidades quilombolas da Colômbia e ouvia as histórias das mulheres de lá, as histórias de conquista pelo direito à alfabetização, que só começou a se difundir muito recentemente, se a gente for ver historicamente. Então é uma história fictícia, de um povoado fictício, mas inspirado em histórias e povoados reais. 

Então sim, esse livro vai trazer a questão da afrodescendência na América Latina. Ele pode servir de gancho pra uma conversa mais séria, um debate mais profundo? claro que pode! Mas principalmente ele pode servir por si só, pela obra literária que ele é, pela história de cumplicidade entre as duas irmãs, a dor do primeiro amor, pela conquista de uma garota pequena que decide aprender a ler e envolve toda a comunidade nisso…as camadas dele são infinitas e todas têm sua importância. Como um bom livro de literatura: infantil ou não. 

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Para conhecer outros livros incríveis com protagonistas negros e negras:

Aqui, uma foto com os melhores livros que li nesse mês.

Amoras 

Dançar nas Nuvens

Severino Faz Chover

Última Parada, Rua do Mercado

Chuva de Manga

O Mundo no Black Power de Tayó

Tio Flores

OPS

Lulu Adora a Biblioteca

Flora

E aqui, uma foto com os melhores livros que li nesse mês:


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